Futuro da praia da Galé discutido em tribunal
 

 

Algarvização, gritam ambientalistas. Manipulação, respondem promotores. O concelho de Grândola e particularmente a praia da Galé, para junto da qual estão previstos dois gigantescos projectos da empresa Costaterra e do grupo Pelicano, é o palco da "guerra" que já vai em tribunal. Do lado dos promotores estão a autarquia, satisfeita com a perspectiva de emprego e criação de riqueza, e a generalidade da população. Dois abaixo-assinados já circularam para criticar o "fundamentalismo" de associações de defesa do ambiente.

Dário Cardador, que lidera o núcleo do Litoral Alentejano da Quercus, mostra cópias dos protestos com um sorriso calmo. Diz que tem ouvido ameaças e que até entrar num café custa, tal as reacções. "É difícil passar a mensagem, porque as pessoas estão convencidas de que atrás dos empreendimentos virá emprego", admite. "Mas a Quercus não discorda dos projectos, quer apenas que sejam deslocalizados para fora da área da Rede Natura".

No total, são cinco as áreas com empreendimentos em perspectiva, nos 45 quilómetros de costa do concelho. "Os que preocupam realmente são os do Pinheirinho e Costaterra, porque têm claros riscos de massificação, com quase seis mil camas", afirma Dário Cardador. Posição partilhada com a Geota, que chega a apontar, em pareceres, contagens da ocupação da Galé "No dia 11 de Agosto de 2005, por volta das 15 horas, contámos cerca de 800 pessoas na praia, estendendo-se já para fora da zona classificada como de aptidão balnear".

Planos de ordenamento

A lei e os instrumentos de planeamento em vigor são os fundamentos invocados por Carlos Beato, presidente da Câmara, para refutar críticas de cedência à pressão imobiliária. "Tudo está a ser feito ao abrigo do Protali e do POOC, os planos de ordenamento em vigor", acentua, acrescentando, com bom humor, ter "responsabilidades acrescidas" na gestão do território. "Não sendo do concelho, conheci a minha mulher dentro da água do Atlântico, em Agosto de 1972, numa destas praias".

Memórias sentimentais não convencem a Quercus, para quem está a ser atropelada a lei, a partir do momento em que nas áreas a urbanizar há habitats e espécies consideradas prioritárias pela Comissão Europeia. Assim sendo, não foram respeitadas as condições legais (ver caixa) para declaração da utilidade pública, invocados na queixa que já deu entrada no Tribunal Administrativo e Fiscal de Lisboa.

Tomaz Bessa Leal, da Costaterra, considera que o parecer do Instituto de Conservação da Natureza é claro ao salientar não existir "uma afectação significativa" dos habitats prioritários. "Nos levantamentos feitos pelo estudo de impacto ambiental foram detectados exactamente três pés do arbusto 'armeria rouyana' na área do projecto, localizados por GPS, enquanto fora da área do projecto existem milhares", argumenta.

Decorridos 17 anos desde a primeira apresentação do projecto, Bessa Leal recorda que já foram envolvidas mais de 30 entidades da Administração Pública, feitas oito consultas públicas, ouvidos perto de 400 técnicos públicos e privados. "O número total de novas camas em todas as áreas de desenvolvimento turístico entre Tróia e Sines é de 28.800. Só Vilamoura tem 35 mil. Quem faz manipulação?", questiona, recusando comparar os projectos com o (pior) Algarve.

 

JN, 26/07/2006