A Agência Europeia do Ambiente (AEA)
acaba de divulgar um relatório sobre as alterações
sofridas pelas zonas costeiras da Europa nos últimos 15
anos. Trata-se de uma magnífica peça, digna de leitura e
reflexão. Não por trazer boas notícias, antes pelo
contrário, mas por ser uma expressão de qualidade, rigor e
sentido de serviço público que aquela agência tem
manifestado ao longo dos seus - altamente produtivos - 12
anos de existência.
Para um pequeno país em vias de
«des-desenvolvimento», onde vai sendo moda tratar com
arrogância saloia as matérias ambientais, a AEA é a pauta
por onde, a curto prazo, será medida a culpa dos ditos
responsáveis.
A gravidade do problema pode
sintetizar-se assim:
1. As zonas litorais sempre foram e
serão lugares-chave em termos ambientais, económicos,
políticos, culturais, etc. Particularmente na Europa, onde
vários autores consideram que o perfil recortado do
Mediterrâneo à Escandinávia terá sido um factor
determinante de civilização.
2. O crescimento exponencial das
áreas artificiais construídas (especialmente edifícios e
estradas) está a gerar «alterações prejudiciais e
irreversíveis» na própria «viabilidade dos ecossistemas
costeiros e dos serviços que os mesmos oferecem».
3. A partir de agora, todos os
impactos negativos serão «exacerbados pelas alterações
climáticas - erosão e subida do nível do mar», as quais
afectarão sobretudo as zonas que sofrem de «compressão
costeira», ou seja, as que têm mais «áreas construídas e
infra-estruturas perto da linha de costa» (in
AEA, «The changing faces of Europe’s coastal areas», Rel.
Nº 6/2006).
Portugal em posição aguda
Neste contexto europeu em que os
litorais são elemento fulcral em múltiplas dimensões,
Portugal está em posição aguda. Somos praticamente só
litoral; uma breve faixa de 200 quilómetros de largura a
tomar conta de quatro portos marítimos estratégicos e de
um mar imenso, balizado pelos arquipélagos dos Açores e da
Madeira. O litoral é uma espécie de condição básica
nacional - tudo o que acontecer na gestão da faixa
costeira acontece ao país no seu conjunto. Ora, o processo
de sobrelitoralização desordenada tem sido denunciado por
dezenas de especialistas, mas as suas razões só se têm
agravado e multiplicado. Podíamos lamentar apenas o facto
de o litoral estar feio e desconfortável, mas infelizmente
temos também de lamentar que se tenha tornado uma fonte de
perigos. Além da desgraça estética e ético-política, o
litoral encontra-se actualmente sob a ameaça de ruína e
mesmo de colapso em alguns troços.
Segundo o notável relatório da AEA,
todos os litorais europeus sofrem tremendas pressões e
encontram-se mais ou menos em situação de risco e em perda
de «recursos marinhos biológicos insubstituíveis». Mas, se
seguirmos a sinuosa serpentina litoral da Europa
Ocidental, ficamos pasmados com o desempenho desta
minúscula entidade nacional. Aqui persiste-se nos erros
mais absurdos, tipo «litoral killer» - pouco a pouco,
pedaço a pedaço, vai-se liquidando tudo... É altamente
significativo ler neste relatório que, entre 1990 e 2000,
foi em Portugal que se deu a mais rápida ocupação do
litoral, com um aumento de 34% de áreas artificializadas,
contra 18% em Espanha.
Lembremos apenas alguns episódios:
nos anos 1990-2000, vimos o já sobrecarregado Algarve
acelerar mais do que nunca o ritmo de construção
(Albufeira, por exemplo, cresceu 65%); hoje, temos 80 mil
hectares de tecido urbano na faixa dos 10 quilómetros a
partir do mar. Vimos a construção, clandestina e não só,
avançar em parques naturais, como o do Sudoeste Alentejano
e o de Sintra-Cascais. Vimos construções em sítios
impensáveis, como a arriba da Praia da Califórnia, em
Sesimbra. Vimos até José Sócrates, quando ministro do
Ambiente, aplicar «medidas preventivas» na costa do oeste
- onde, entre Caldas e Nazaré, inúmeras praias estão
actualmente interditas por risco de esboroamento das
falésias. Vimos, no litoral norte, praias já sem praias e
uma frente urbana galopante, sobre a terra e sobre o
mar...
Pois bem, no momento em que a AEA
vem traçar um retrato alarmante do futuro das zonas
litorais de toda a Europa, que trata Portugal de fazer?
Trata de tricotar rapidamente a malha dos interesses.
Basta consultar o rol dos designados projectos PIN
(Potencial Interesse Nacional).
Megaprojectos de vento em
popa
Comecemos de novo pelo Algarve, onde
o PROTAL está a tentar pôr alguma ordem no caos perante a
despudorada invocação de «direitos adquiridos» que, se
fossem levados a sério, iriam gerar mais 250 mil camas...
Isto sem contar com os megaprojectos, alguns dos quais
aprovados na primeira metade dos anos 90 e que seguem
agora de vento em popa: Vila Moura XXI, 2.ª fase (17 mil
camas), Verdelago, em Altura (2 mil), Vale de Lobo III
(mais 1.050). Outros casos são as Dunas Douradas (500
camas); ou dois empreendimentos separados pela lagoa dos
Salgados, um na herdade do mesmo nome, concelho de
Albufeira, e outro em Silves, na Praia Grande (10 mil); ou
o alastramento da Meia Praia (10 mil).
Se saltarmos para norte, em Vila do
Conde, o empreendimento Optimist, em Azurara, deixa-nos
pessimistas com a sua ideia de implantar 300 camas e
quatro prédios em cima de um cordão dunar. Mas não só: no
mesmo concelho, em Árvore, preparam-se novos monos nas
dunas, em zona de risco e contrariando o Plano da Orla
Costeira (POOC).
Na costa oeste, em Alcobaça,
destaca-se um loteamento de 800 hectares entre Martingança
e o mar; e o PIN da Praia do Bom Sucesso a encaixar mais
3.300 camas. Em Alfarim, Sesimbra, prepara-se uma
urbanização com 1.700 camas, entre apartamentos e
moradias.
E finalmente o litoral alentejano: a
última virgem do convento? Qual o quê! A escala
desmesurada das propostas sem uma visão de conjunto
planeada irá acabar com a galinha dos ovos de ouro. Só na
frágil restinga até Soltroia contam-se 15 mil camas; na
Comporta 5.000; outras 6.000 turísticas e 1.600
residenciais no Carvalhal. Mais abaixo, os Pinheirinhos
(3.000) e a Costa Terra (7.000). Logo a seguir, para a
praia de Melides há 3.000 camas pedidas; e 3.800 para as
imediações da lagoa de Santo André.
Mas parecia pouco. Sobrava a prisão
de Pinheiro da Cruz... O Ministério da Justiça, afinal,
andara a usurpar ao turismo praias e pinhais? Pois saia de
lá a prisão e venha um «resort»...
Tudo isto se interrompe pelo
polígono industrial de Sines. Daí para baixo começa o
parque natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina -
ou talvez não... pois onde ele efectivamente começa é nas
gavetas e nos telefonemas que em Lisboa tudo negoceiam. O
que é um parque ao pé do telefone certo?
O relatório da AEA escolheu o
sudoeste alentejano como exemplo a merecer uma atenção
especial pela sua biodiversidade e pelos riscos que corre
com as pretensões imobiliárias. Espera-se que ele não se
torne um dia apenas mais um caso para estudo da mais
incrível desgovernação ambiental.
No remate do seu relatório, a
Agência Europeia do Ambiente alerta para a necessidade de
políticas activas de ordenamento do território; aconselha
a gestão integrada e o princípio da «retirada controlada»
para minimizar os impactos da erosão e subida do nível do
mar. Nós continuamos em sentido contrário: desordenamento,
gestão desintegrada e uma ofensiva imparável na ocupação
da faixa costeira. Com a complacência das elites
políticas, económicas e profissionais... e um humilhante
desrespeito pelo Ministério do Ambiente e do Ordenamento
do Território.