|
Ambientalistas enviam
queixa a Bruxelas
A Quercus vai avançar com uma queixa em Bruxelas contra os projectos
turísticos do Pinheirinho e do Costa Terra. A associação de defesa do
ambiente considera a decisão do Governo "ilegal", pois põe em causa uma
espécie vegetal de protecção prioritária a armeria rouyana. Uma acção nos
tribunais nacionais também está a ser equacionada.
Os dois projectos situam-se em zona de Rede Natura 2000, uma classificação
comunitária que pretende conservar espécies prioritárias. Como dos
empreendimentos decorrerão impactos nestas espécies, as avaliações de
impacto ambiental foram condicionadas a uma declaração de interesse
público por parte do Governo. O despacho que reconhece o imprescindível
interesse público dos projectos foi assinado no final do ano passado pelos
ministros do Ambiente e da Economia e conhecido ontem.
Na base da argumentação dos dois governantes está o contributo dos
projectos para o desenvolvimento económico e social de uma zona que o
Governo considera humanamente envelhecida, desertificada e com carência de
emprego. No despacho a que o DN teve acesso lê-se que, "para além da
criação de emprego directo e indirecto, prevê-se um esforço sensível para
a qualificação dos recursos humanos da região, factor preponderante não só
na estruturação de uma oferta turística de qualidade mas nas oportunidades
criadas de requalificação e fixação da população".
A oferta turística na região é fraca, refere o documento, pelo que o Costa
Terra e o Pinheirinho ajudarão a colmatar a escassez de camas.
No que diz respeito à conservação da natureza, o Governo considera que as
áreas de desenvolvimento turístico representam apenas 1,3 % da área do
sítio classificado na Rede Natura. Ou seja, o impacto dos projectos "tem
uma afectação muito pouco significativa de habitats naturais não
prioritários". Relativamente à espécie de flora em questão, a armeria
rouyana, o despacho afirma que há uma "afectação não significativa de uma
espécie de flora prioritária".
Os dois ministros alegam ainda que a ausência de intervenção nesta zona,
ou seja, a não construção dos empreendimentos, ainda é mais prejudicial,
pois o espaço fica entregue à "degradação da exploração florestal" e ao
risco de incêndio.
Os argumentos de Nunes Correia e Manuel Pinho não convencem os
ambientalistas, que prometem opor-se ao projecto através dos tribunais
nacionais e internacionais.
"De acordo com a directiva habitats, apenas podem ser evocadas razões
relacionadas com a saúde do homem ou a segurança pública ou com
consequências benéficas primordiais para o ambiente", afirmou ao DN,
Hélder Spínola, presidente da Quercus. O reconhecimento do interesse
público de um empreendimento, acrescenta, também pode acontecer se houver
um parecer da Comissão Europeia. "Neste caso, isso não acontece."
A declaração de utilidade pública destes projectos ainda se torna mais
preocupante se for analisado o contexto global da zona. Abre-se um
precedente perigoso que pode ser aproveitado por outros promotores
turísticos previstos para o litoral alentejano, diz a Quercus. A pressão
turística para esta zona é enorme e a aprovação de um empreendimento pode
abrir a porta a muitos outros, adiantou Hélder Spínola.
Para o Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA),
outra associação de defesa do ambiente, a aprovação dos empreendimentos
também não é vista com bons olhos. Por isso, o GEOTA vai pedir ao Governo
os estudos que sustentaram a atribuição da declaração de "interesse
público" a estes empreendimentos na zona de Grândola, admitindo recorrer à
justiça.
Para Pedro Costa, dirigente da associação, não está em causa só um "outro
interesse público reconhecido que é o da conservação da natureza" mas a
ausência de planeamento. "Não estamos contra este ou aquele empreendimento
em particular. Estamos contra a ocupação do litoral alentejano sem
planeamento. Tem de haver uma visão de conjunto porque os impactos destes
projectos vão somar-se a outros."
Diário de Notícias, 17/01/2006
|