Carlos Neves
Zambujeira do Mar em pleno Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina é uma das praias que, pela sua notoriedade, motiva especial protecção
Zambujeira do Mar em pleno Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina é uma das praias que, pela sua notoriedade, motiva especial protecção

Uma zona turística esquecida

O despertar da costa alentejana

 

Com o detonar das explosões que abateram duas inestéticas e não utilizadas torres de apartamentos turísticos em Tróia não se deu apenas sinal de partida a um novo investimento a rondar os 300 milhões de euros que levantará um ‘resort’ com cerca de 4000 camas, 2500 postos de trabalho directos e mais uns dez mil indirectos.

O rebentamento acordou também toda a costa alentejana e vicentina, uma zona turística até agora muito esquecida e onde se confrontam duas perspectivas antagónicas: a tentação de semear um turismo de massas com muita construção e o aparecimento rápido de riqueza ou, em alternativa, prosseguir um desenvolvimento controlado que exigirá sempre a assunção pela parte da sociedade, do Estado e da União Europeia de uma discriminação positiva das regiões e de quem lá vive.



PRESSÃO EMPRESARIAL

Os mais de 200 quilómetros de orla marítima alentejana e vicentina, de Tróia a Sagres, percorrem sete concelhos, embora um deles, Santiago do Cacém, não seja importante para a questão, já que tem jurisdição apenas sobre uma pequena extensão na zona de Santo André.

Os outros concelhos com orla marítima são Grândola, que inclui Tróia, Alcácer do Sal, Sines, Odemira, Aljezur e Vila do Bispo onde realmente se joga o futuro turístico de toda a costa. E aqui as pressões sobre os poderes públicos são muito fortes: as autarquias sentem urgência em responder aos anseios de uma vida melhor por parte das populações que estão em termos estatísticos na cauda do desenvolvimento da UE; e há empreendedores que querem rentabilizar os seus investimentos , às vezes já com dezenas de anos, na compra de terrenos com elevado potencial turístico.

A questão complexa é que mesmo tendo definido uma zona de protecção especial, com a constituição do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina com controlo sobre 75 mil hectares, ao longo da costa de São Torpes, ao Sul de Sines, até ao Burgau no concelho de Vila do Bispo, existe um risco permanente de tudo perder. Afinal, o Estado não é proprietário de nenhum dos terrenos abrangidos pelo parque e a permanente procura de formas de rentabilização por parte dos investidores conhecidos pela ligação à indústria turística suscita uma guerra que se sabe vai acelerar com a abertura, já em 2006, do plano de ordenamento do parque, respeitado sem concessões desde que foi aprovado em 1995.

Adiante-se que o plano de ordenamento estabelecia quotas para investimentos turísticos consideradas aceitáveis para os recursos existentes: foi definido que o turismo Sol e Mar tinha um potencial de 100 mil veraneantes no conjunto das praias do parque e partir desse número fixou-se um limite de construção de camas que não excedesse as possibilidades normais de acolhimento.

650 OU QUATRO MIL CAMAS

Um exemplo dos contenciosos na costa alentejana provocados pela imposição de um planeamento corre em tribunal a propósito da praia dos Aivados, ao sul de Porto Covo, onde o promotor insiste num projecto de quatro mil camas quando só está prevista a existência de 650 na zona.

Também polémico é o caso de Vila Formosa, no concelho de Odemira, porque o projecto excederá as 1600 camas previstas no plano de ordenamento.

Dado o sinal de arranque do investimento turístico na costa alentejana é decisivo que se atente aos vários interesses em jogo, para dentro de alguns anos não se estar a clamar contra a corrupção e a lamentar a perda da última zona protegida da costa. Mas não se pode pôr os privados a pagarem a defesa do património natural. Na Grã-Bretanha, uma organização de índole pública, a National Trust, com milhares de sócios, adquire os terrenos com interesse patrimonial e os riscos de destruição e corrupção são muito reduzidos.

TURISMO RURAL PREDOMINA

Com a orla marítima controlada em mais de metade da sua extensão pelo Plano de Ordenamento do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, as iniciativas turísticas mais frequentes apostam nas regiões interiores. O Alentejo é assim um paraíso do turismo rural não só em termos de residências secundárias, muito acessíveis a partir da Grande Lisboa, como também na transformação de montes e herdades em estabelecimentos hoteleiros.

A dinâmica deste sector pode apreciar-se no ‘site’ agroportal.pt que oferece 36 locais de turismo rural nos distritos alentejanos, Portalegre, Évora, parte sul de Setúbal e Beja. Há localidades muito belas, com Marvão e Monsaraz à cabeça, e desafios variados desde “uma casa tipicamente alentejana onde funcionava uma taberna e um alojamento desde o princípio do século passado”.

DESTINO

Um inquérito da Direcção-Geral de Turismo sobre os destinos de férias dos portugueses, relativo a 2004, refere que apenas 9,9% dos que saíram da sua residência escolheram o Alentejo. O Algarve liderou com 35,3% e o Norte teve 26,1% .

PREÇOS

O Alentejo tem de acordo com o relatório de conjuntura da DGT dos preços mais baixos do País, apresentando uma média de 78,60 euros por quarto duplo em estabelecimento hoteleiro. Mais barato só há a zona Centro com 68,89 euros.

SEM FÉRIAS

Os alentejanos são fracos turistas, figurando entre os portugueses que menos saem da sua residência para gozar férias. Neste aspecto só os algarvios viajam menos devido aos muitos atractivos que têm à porta de casa.

HOTELARIA

Apesar dos cerca de 200 km de costa marítima, o Alentejo está ao contrário do resto do País voltado para o Interior. Tem um campo de Golfe em Marvão e os melhores hotéis são, por enquanto, em zonas históricas, longe das praias.

QUEBRA

Os últimos números relativos ao 1.º trimestre de 2005 mostram que o Alentejo é a única região do País em quebra de dormidas turísticas, relativamente a 2004, com menos 3% em nacionais e menos 8,2% em clientes estrangeiros.
 

 


AUTARCAS REVELAM PROJECTOS PARA OS SEIS CONCELHOS VIRADOS À COSTA MARÍTIMA ALENTEJANA E VICENTINA



ALCÁCER DO SAL

Na freguesia de Comporta foi construído um hotel com 80 camas, o empreendimento turístico do Montalvo (300 camas) e o aldeamento Casas da Comporta (138 apartamentos e moradias). Em fase de apreciação, segundo o edil, está o empreendimento Herdade da Comporta que prevê um total de 3500 camas.

GRÂNDOLA

De acordo com o autarca de Grândola já estão aprovados os empreendimentos de Tróia (dez mil camas), do Carvalhal (5700), do Pinheirinho (1950) e de Melides (2700), que criarão dez mil postos de trabalho. Os investimentos dos grupos Sonae, Amorim, Espírito Santo, Pelicano e Costa Terra somam 1730 milhões de euros.

SINES

Para a zona de Porto Covo existem actualmente três projectos que estão em fase de apreciação. O autarca Manuel Coelho adiantou apenas que um dos empreendimentos turísticos deve ficar junto à barragem de Morgavel. Na cidade de Sines está prevista a construção de um hotel com 140 camas e centro de congressos.

ODEMIRA

O empreendimentos turísticos de Vila Formosa (Milfontes) e do Montinho da Ribeira (Odemira) são os dois projectos que deverão avançar no concelho depois de aprovados os estudos de impacte ambiental. Segundo o autarca, ambos terão campos de golfe, hotéis e aldeamento turístico com um total de 2600 camas.

ALJEZUR

A Câmara aprovou o estudo de informação prévia de um hotel de 5 estrelas, com 100 quartos, no sítio do Canal. Em apreciação estão três projectos de turismo rural, de pequena dimensão, condição imposta, salienta o presidente da autarquia, Manuel Marreiros, pelos planos de ordenamento da área de ocupação turística.

VILA DO BISPO

Em Sagres será construído um hotel com 70 quartos. O projecto de arquitectura já foi aprovado pela Câmara, que aprecia outras propostas de investimento na área dos ‘resorts’. Gilberto Viegas, presidente da autarquia, pretende ainda implementar o porto de recreio da Baleeira para dinamizar o turismo náutico.

Correio da Manhã, 13/09/2005