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O debate entre
Cavaco e Jerónimo teve aspectos curiosos, quase arriscaria que os
contendores nutrem simpatia mútua. Talvez seja por partilharem um sentimento
de "não fazerem parte do baralho", ou pela sua modesta origem ou por ambos
não serem muito dotados para a esgrima da retórica.
Cavaco apareceu descontraído como eu nunca o vira e nem se ofendeu quando
Jerónimo, embora de forma indirecta, lhe chamou mentiroso. Com sinceridade
ou sem ela deu-se ao luxo de esvaziar alguns dos "papões" associados à sua
figura (caso das privatizações) e, para meu espanto, chegou quase a ser
simpático.
Este debate, ao contrário de outros, falou do mundo real da produção e dos
trabalhadores deixando em segundo plano as questões que afligem os
burocratas e as corporações.
O que se destaca de tudo o que foi dito e que resume a diferença entre
Cavaco e Jerónimo é o "Dilema do Bolo", ou seja, se o problema é o bolo ser
muito pequeno ou se o problema é o bolo estar mal dividido.
Apesar de todos sabermos que ambos têm razão pois o bolo não só está mal
repartido como, ainda por cima, é bastante pequeno a verdade é que esta
formulação, de resto habitual, acaba por favorecer Cavaco.
Os candidatos da esquerda aparecem sistematicamente como alguém que só pensa
em comer um bolo que o Cavaco tanto se preocupa em fazer crescer.
Este acesso de gula deriva de pensarem, erradamente, que só ganham muitos
votos dando coisas às pessoas já. Como as seitas religiosas têm mostrado
pode ser muito mais intenso o efeito das promessas de mundos maravilhosos
mesmo que num futuro incerto.
A esquerda só terá verdadeiro sucesso quando convencer o povo de que a sua
luta pela justiça na distribuição não só não põe em causa o desenvolvimento
económico como é a única forma de o crescimento dar um salto qualitativo.
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Fernando Penim Redondo
- Dezembro 2005 |