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Estes debates,
como o de Louçã com Alegre, entre candidatos de partidos que nunca tiveram
responsabilidades governamentais e/ou candidatos que se apresentam à margem
dos partidos têm um carácter singular: são uma espécie de lamentação
pública, uma queixa feita ao povo pelos candidatos por o país estar como
está, a europa ser como é e o mundo insistir em ser caótico.
A enumeração e descrição dos múltiplos problemas que afectam a humanidade
funciona como uma insinuação de que o discursante tem alguma ideia luminosa
para os resolver, mas essa tal ideia (ou alternativa, como se diz) nunca
chega a aparecer. É verdade que o Sócrates conseguiu assim uma maioria
absoluta mas, no caso dele, havia um adversário chamado Santana Lopes.
Durante uma hora inteira o debate conseguiu evitar falar da actividade
económica concreta, das empresas e da organização da produção, dos
trabalhadores, das relações de produção e da concorrência internacional. Fez
como se isso, que é o mais importante, não existisse. Como se o emprego,
considerado pelos candidatos o maior problema do país, fosse apenas uma
questão que alguns burocratas iluminados tivessem que resolver.
Mais uma vez os únicos trabalhadores mencionados foram os funcionários
públicos e, nomeadamente, os professores. Já Jerónimo tinha feito outro
tanto com os militares e os juízes.
Num passe de mágica a economia real desaparece e desaparecem os empresários
e as relações capitalistas da produção para nos falarem de um mundo em que
só existem funcionários, deputados, orçamento de estado, leis etc.
O pior é que toda essa máquina da burocracia, e também os candidatos à
presidência, estão à espera que os tais empresários exploradores, omitidos
no discurso, criem riqueza para o sistema continuar a funcionar (mesmo que
mal).
Esta esquerda não lhe passa pela cabeça que lhe compete, preciamente a ela,
inventar uma nova maneira de funcionar em sociedade. Uma forma qualquer de
superar os tais problemas que tanto a afligem (os lucros exorbitantes das
empresas, a constituição neo-liberal da europa, o desemprego, o diabo a
quatro).
Esta esquerda como não faz o trabalho que lhe compete vinga-se por vezes em
bravatas caricatas como aquela do Louçã que quer demitir o Alberto João
Jardim (e depois ficar com cara de parvo quando ele regressar com maioria
absoluta).
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Fernando Penim Redondo
- Dezembro 2005 |