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A sensação de que
algo não está certo, de que um equívoco qualquer afecta as “campanhas
presidenciais” a que estamos assistir deve-se, quanto a mim, ao facto de
todas elas terem o seu quê de paradoxais.
Cavaco
Quer capitalizar o generalizado anseio de mudança e a desconfiança popular
relativamente aos políticos e aos partidos. Essa linha, que promete bons
resultados, é contrariada pela sua atitude cordata em relação ao governo de
Sócrates e às repetidas garantias de respeito pelos actuais poderes
constitucionais.
Não parece fácil contentar ao mesmo tempo os que desejam que o presidente
deixe de ser uma figura decorativa e aqueles que receiam um presidente
“sidonista”.
Soares
Baseia quase tudo na exploração do “perigo Cavaco”, para a arraia miúda,
enquanto tenta capitalizar a alergia “classista” dos sectores mais
cosmopolitas relativamente ao seu adversário. Mas as “deficiências
culturais” de Cavaco e a sua condição de classe só podem favorecê-lo junto
da arraia miúda.
Por outro lado, para ilustrar o “perigo” Cavaco, diaboliza a acção deste
como primeiro-ministro. Ora como Soares era o Presidente no tempo dos
governos de Cavaco resulta que as "maldades" de Cavaco acabam por ser uma
demonstração da inutilidade de Soares na ocupação de tal cargo.
Soares também pretende apresentar-se como alguém capaz de “unir os
portugueses” mas tal é contraditório com a incapacidade para evitar a
candidatura de Alegre e a proliferação à esquerda.
Alegre
Tenta mostrar-se como um combatente corajoso, movido por ideais e valores,
que não precisa dos aparelhos e compromissos partidários. No entanto deixou
prolongar a controvérsia pública que torna patente que esta situação não foi
desejada. Não consegue esconder que a “traição” do seu partido, que fingira
apoiá-lo por omissão, é algo que não perdoa e deixa campo à suspeita de ser
essa a sua principal motivação ao concorrer.
Jerónimo e Louça
Toda a gente sabe ao que vão; desancar as políticas de Sócrates para tirar
dividendos partidários. Esse objectivo é porém desacreditado se forem
forçados a recomendar o voto no candidato de Sócrates numa eventual segunda
volta, ou se forem acusados de ter facilitado uma vitória de Cavaco na
primeira volta.
A grande dúvida que persiste é a de saber se o povo votante dá muita ou
pouca importância às frenéticas movimentações da campanha.
Perante os paradoxos referidos pode acontecer que o povo resolva ignorar as
campanhas e basear a sua decisão no muito que sabe sobre os candidatos.
Pelo menos os mais velhos tiveram a oportunidade de observar in loco um
Cavaco primeiro-ministro, e um Soares presidente, durante dez anos a fio.
Afinal não é todos os dias que os votantes podem beneficiar daquilo que os
americanos chamam “try and buy”, ou seja, experimente antes de usar.
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Fernando Penim Redondo
- Dezembro 2005 |