A HORA DO ALUGUER DE SOFTWARE

por João Ramos e Manuel Posser Andrade

 

O negócio dos ASP («Aplication Service Provider») em Portugal, após uma fase de desencanto, tem os primeiros utilizadores e dá sinais de maturidade

Rui Ochôa

Tal como os «service bureau» dos anos 70 (na foto), os ASP propõem-se alugar «software» e capacidade de processamento

A EXEMPLO do que acontece noutras áreas de actividade, também na informática há modas que se vão repetindo ciclicamente ao longo do tempo. Se nos anos 70 era vulgar uma empresa subcontratar uma entidade exterior para fazer o processamento de dados - os chamados «service bureau» - nas décadas de 80 e 90, a maioria das organizações optou por ter os computadores e as aplicações «dentro de casa». Mas foi só nos dois últimos anos, com a banalização da Internet, que começou de novo a fazer sentido confiar a informática a uma entidade externa.

Surgiram então os ASP (acrónimo anglo-saxónico de «Aplication Service Provider»), um conceito que não é mais do que a utilização remota, através de «web browser», de aplicações de «software» em regime de aluguer. Para muitos, configurava a solução ideal para o «outsourcing» da área de informática: os custos passavam a estar controlados, haveria menos preocupações com a manutenção e com a actualização de «software» e os recursos humanos internos podiam ser reduzidos.

Apanhando a crista da onda de entusiasmo que varreu a economia da Internet nos últimos anos, os ASP surgiam nessa altura como um negócio de grande futuro, quer para as empresas de «software», quer para os operadores de telecomunicações, que viam nesta tecnologia uma forma de aumentar o tráfego de dados nas suas redes. As previsões entusiásticas, propagandeadas aos «quatro ventos» pela maioria dos analistas de mercado mundial de Tecnologias de Informação faziam antever um «boom». Alguns analistas previam que em 2003 o mercado mundial de aluguer de «software» poderia valer cerca de 20 mil milhões de dólares (4,5 mil milhões de contos), quando em 1999 nem sequer existia. Centenas de iniciativas foram surgindo nos EUA e na Europa ao longo de 2000.

Mas, tal como aconteceu com outras áreas da nova economia, a «bolha» rebentou, tendo-se passado rapidamente da euforia ao desapontamento. Em finais do ano passado, o Gartner Group já previa em Dezembro de 2001 «60% dos ASP irão desaparecer devido a modelos de negócio e a parcerias inadequados, à inabilidade em executar e à consolidação de mercado». De uma primeira fase caracterizada pela «experimentação e uso da tecnologia pela tecnologia», caminhou-se nos últimos meses, de acordo com um estudo da Mercer Consulting, para projectos de aluguer de «software» através da Internet «mais virados para as necessidades dos utilizadores».

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Ao mesmo tempo, a oferta de ASP deixou de ser um simples aluguer remoto de «software» através da Internet, passando a ter diferentes gradações de «outsourcing» (A Mercer Consulting identificou nove modelos de negócio de ASP) e a segmentar-se de acordo com a dimensão das empresas (PME e grandes empresas) e a aplicações horizontais e verticais. «Queremos continuar na segmentação vertical de aplicações», comenta Calado da Costa, director de «marketing» da YASP, um ASP que está a aumentar a oferta vertical desenvolvendo mais aplicações nas áreas de gestão para a indústria. Para Calado da Costa a evolução do mercado de ASP está a ser «mais rápida do que esperava, mas mais lenta do que o desejável».

«O segmento verticalizado é o que vai vingar», corrobora Paulo Ribeiro, administrador da TASP. Com cerca de 4000 clientes, a maioria provenientes de serviços de «hosting» prestados anteriormente pela Telepac, este ASP posiciona a sua estratégia para este segmento, uma vez que «parceiros como a Primavera ou a Jurinfor estão actualmente a desenvolver aplicações específicas em várias áreas ou simplesmente a converter 'software' para o formato 'on-line'».

Contudo, Paulo Ribeiro espera resultados a curto prazo. «Ainda existe uma grande falta de confiança das empresas no modelo de ASP. As empresas, nomeadamente PME, detêm muitas vezes um preconceito e uma desconfiança quanto à segurança que, enquanto persistir, irá atrasar o desenvolvimento dos ASP. Há um enorme trabalho evangelizador a fazer», comenta.

Uma questão que para Nuno Coelho da IXIS não passa pelo modelo de ASP em si, mas sim pelas aplicações que serão disponibilizadas pelas empresas de ASP: «Quem sobreviverá serão as empresas que dispõem de soluções que sirvam eficazmente os interesses das empresas». Iniciando a sua actividade em Julho de 2000, a IXIS foi o primeiro ASP a surgir em Portugal e tem o «break even» operacional previsto já para o final do ano, assim como uma facturação de 300 mil contos para 2001.

Para desmistificar as questões desta tecnologia, surgiu, entretanto, o ASPIC (ASP Industry Consortium) - localizável em www.aspindustry.org : «Esta associação pretende educar o mercado, nomeadamente as PME que se encontram menos bem informadas sobre as questões desta tecnologia», afirma Vasco Monteiro da Tecnidata.

Presidida em Portugal actualmente pela TASP, esta associação, que conta com a participação da maioria das empresas dos ASP em Portugal visa, ainda, a criação de contactos junto a instituições como o IAPMEI, criar «roadshows», seminários e trabalho pedagógico para fomentar esta sensibilização junto das empresas, nomeadamente PME. Devido a este problema de base cultural «será mais fácil as empresas aceitarem 'softwares' de CRM ou 'e-business', uma vez que nos ERP poderá haver o sentimento erróneo de que os seus dados estão expostos a terceiros», acrescenta Paulo Ribeiro.

Não menos importante para o aumento do mercado em Portugal está a ser a familiarização das partes envolvidas no negócio com os estabelecimento das definições do níveis de serviço (SLA – Service Level Agreement). Um aspecto crítico, dado que o cliente do serviço fica na dependência da infra-estrutura do ASP, colocando-se questões de confidencialidade de dados e segurança de acesso às aplicações.

JOÃO RAMOS/MANUEL POSSER ANDRADE