economiadotcom@traumatismo.com

Lisboa, 3 de Junho de 2001

economiadotcom@traumatismo.com

Não, não é mais um “site” (ou sítio), sobre “como fazer sem fazer nada”, mas é mais uma opinião, a minha, sobre o futuro das ideias e da economia DotCom. Aliás Economia dos Pontos Comerciais (por ironia do destino “.com” assenta perfeitamente nesta visão económica).

Muito já foi dito e escrito sobre a ascensão e “queda” do fenómeno “.com”, mas não consegui resistir a apresentar mais uma análise sobre a situação actual da Nova Economia e das suas perspectivas de evolução. Penso mesmo que o actual, menos bom, momento económico global nada tem a ver com a economia DotCom, mas tem tudo a ver com a economia TMT (Telecomunicações, Multimedia e Novas Tecnologias). Distingo estas duas economias porque elas encontram-se em patamares diferentes de contribuição para a Economia. A economia TMT posiciona-se como uma fornecedora da economia DotCom. Além da infra-estrutura, da tecnologia e de muito capital humano, forneceu o financiamento para o nascimento da economia DotCom. A economia DotCom irá desenvolver-se na exploração de novos modelos, processos e esquemas de negócio. Será uma economia de pequenos Pontos Comerciais.

Mas voltemos um pouco atrás.

Como todos constatamos, no início deste ano de 2001 deu-se uma “pequena travagem” nos ritmos de crescimento das economias mais desenvolvidas, nomeadamente dos EUA, tendo a “travagem” sido muito mais forte em certos sectores económicos, dos quais destaco o sector ligado aos Sistemas e Tecnologias de Informação. Mas, o pior comportamento neste sector não pode ser generalizado, pois é nítido que empresas que suportam as suas vendas em produtos de hardware tiveram prestações inferiores às que vendem software, e estas comportaram-se pior que as que prestam serviços de integração ou de consultoria. Mas porquê este comportamento?

Existem vários factores que em, diferentes graduações, determinaram este comportamento. O primeiro está directamente relacionado com a quebra brusca nos fortes investimentos de substituição de hardware e software requeridos pelos “bug” do ano 2000, e que terminaram. O segundo factor, prende-se com o alargamento nos tempos de reposição da tecnologia, nomeadamente de servidores e de pc’s, na vertente hardware, e de aplicações na vertente software. No software, o decréscimo de investimento só não foi maior porque surgiu a “moda” CRM (Customer Relationship Management) aliada ao crescimento do e-business. Por outro lado, e em contracorrente, ao aumentar o grau de informatização das empresas, aumenta a complexidade da sua gestão, e por conseguinte a recorrência a serviços especializados, quer de consultoria, quer de implementação, quer de manutenção.

Mas o que é que esta situação tem a ver com as “.com”, pode estar agora a interrogar-se. Pois é, tem quase tudo. Primeiro, as excelentes prestações deste sector (aliado ao das telecomunicações e multimedia) eram geradores de fortes lucros bolsistas para a maioria dos bancos de investimento e dos investidores particulares. Com estes lucros um investidor particular reforma-se ou transforma-se em “venture capitalist”, e um banco de investimento dedica-se a financiar projectos potencialmente ainda mais lucrativos. É neste frenesim de lucratividade que tem o “azar” de nascer a Internet.

Com a abundância de dinheiro “fácil” e o nascimento de um novo canal de negócios, que ainda por cima é global, ubíquo e com poucas barreiras à entrada (depende do modelo de negócio), surgem e multiplicam-se ideias para a sua exploração. Muitas destas ideias têm por base um domínio “.com”, são consideradas brilhantes, e afluem investidores a nelas quererem colocar o seu dinheiro. Como consequência, o valor destas ideias-empresas dispara nos mercados bolsistas e ganham-se fortunas só na pura transacção de acções, pois ainda é muito cedo para se obterem remunerações com base em dividendos.

Mas eis que, no frenesim desta agitação, começam a surgir más notícias sobre os seus “pais e irmãos mais velhos”, as TMT (Telecomunicações, Multimedia e Novas Tecnologias). Começam a desaparecer os lucros que alimentam as “.com” e estas, como ainda não estão “desmamadas”, começam a morrer por falta de alimento. O pior de tudo é que, quanto maior a ambição da ideia, maior a necessidade de injecção de capital, e mais longo o tempo necessário à sua recuperação. Como os mercados já se desabituaram de esperar, pois hoje só a rapidez é premiada (chega-se ao ponto de só se investir em empresas já formadas e com lucros), começa a gerar-se o pânico, os mercados bolsistas começam a comportar-se como “baratas tontas” e os bancos de investimento a acumular erros atrás de erros e perdas atrás de perdas, traumatizando todas as entidades envolvidas. Surge o estado de sítio, “traumatismo.com”. É  esta a situação que ainda hoje vivemos.

Mas então, como é que vamos sair dela? Com é que a podemos inverter? Como ultrapassar este traumatismo? Qual será o futuro das “.com”?

A economia DotCom não é uma Economia diferente em muitas das suas principais vertentes. Sofre ciclos económicos, pode ter crescimento com inflação (contrariamente ao que muitos já advogavam), as empresas continuam a necessitar construir planos de negócio com base em estratégias bem definidas, etc. Mas existem algumas variáveis fundamentais e que, na minha opinião, a caracterizam muito bem.

·          Primeiro, será a economia da micro e da mini empresa, ainda que os grandes conglomerados económicos continuem a prosperar. Deverá existir um brutal crescimento percentual do peso das MMEs na economia global.

·          Segundo, o enorme peso dos bens intangíveis (formação das pessoas, qualidade dos processos, colaboração inter-empresas, ...).

·          Terceiro, aumento exponencial da capacidade de passar da ideia à sua concretização. As boas ideias serão o factor diferenciador na competição inter-empresas, devendo ser premiadas e fortemente apoiadas. Deverão surgir os primeiros “mercados” de ideias. (No futuro voltarei a este tema).

·          Quarto, pulverização da concorrência (esta passará a surgir de qualquer lado e far-se-á sentir em todas os áreas de cada empresa - no mercado, através da venda de produtos e serviços, e internamente, no aumento das opções de “outsourcing”).

·          Quinto, crescimento exponencial do volume de informação sem qualquer valor acrescentado ou mesmo de dúbia qualidade. Esta situação pode ocasionar graves problemas ao nível da definição estratégica e da operacionalidade de cada empresa.

·          Sexto, intromissão dos grandes conglomerados financeiros em todas as actividades económicas, quer directamente, quer através de parcerias. Este facto pode, por um lado ser benéfico porque torna este sector mais sensível às problemáticas de outros sectores, mas por outro lado  pode ocasionar estrangulamentos ao crescimento se, para se aprovarem financiamentos a uma ideia, tiverem que pedir “aprovação” a todos os seus “parceiros” sobre a sua não sobreposição (com o perigo da ideia ser “replicada” no processo).

·          Sétimo, e último, o contínuo crescimento do peso dos serviços na economia. Depois de termos tratado bem das necessidades básicas da população (um grande desafio ainda em muitos países), iremos caminhar para o fornecimento de satisfação às outras necessidades (que Maslow representou muito bem na sua pirâmide – desde as básicas até às de poder e status), que consomem menos produtos do que serviços (o jogo, o turismo, o lazer e a cultura serão os sectores de futuro nas sociedades mais desenvolvidas).

Ora a Internet, potenciadora da economia DotCom, é uma geradora de serviços (só em “Startrek – O Caminho das Estrelas”, é possível enviar produtos pelo HiperEspaço – mas lá chegaremos). As empresas DotCom têm como objectivo acelerar e melhorar a oferta de serviços, ainda que também acelerem a cadeia logística de fornecimento de produtos e permitam alargar a base de escolha desses mesmos produtos. Portanto, o futuro ainda agora começou, existe muito campo para desenvolvimento, quase todo o pânico é infundado, mas é preciso mudar alguns pontos fundamentais na forma como investimos e, mais concretamente, como as fontes de dinheiro investem.

Estas fontes têm de pulverizar os investimentos, acreditar mais nas ideias, ser mais rápidas nas decisões, e terem menos preocupações com as sobreposições. Em suma, têm de curar, ou em linguagem mais financeira e de outros tempos, sanear o “traumatismo.com”. De um portfolio empresarial alargado, surgirão rendimentos alargados, ainda que em parcelas mais pequenas, mas também com menor risco. Surgirá também uma nova forma de fazer negócio, e com ela uma Nova Economia. Será a economia Dotcom, constituída por pequenos Pontos Comerciais.

Serão estas pequenas entidades que alimentarão uma economia ainda mais rápida, mais competitiva, mais inovadora, mais colaborativa, mais próxima, mais artesanal, mais preocupada com a satisfação do consumidor, e muito, mas mesmo muito, mais vasta.

Até breve,

José Pedro Gonçalves

Aspetus

  

 

 

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