Lisboa, 3 de Julho
de 2001
Colaborar com
catalisador
Hoje, mais do que nunca, fala-se em colaboração, em cooperação, em
“coopetição”. Porque é que de repente se começou a dar muito maior importância
a esta necessidade de partilhar com outros, muitas vezes concorrentes,
informação mais ou menos vital para a continuidade e sobrevivência de cada
empresa? Porquê é que se fala insistentemente na necessidade de optimizar as
cadeias de fornecimento através da integração de um maior número de entidades,
quer a montante, quer a jusante do processo produtivo interno? Porquê é que
hoje é vulgar que empresas concorrentes procurem fortalecer-se através da
junção de forças na prossecução de objectivos comuns? Em suma, porque é que
colaborar está na ordem do dia de cada empresa e é, já hoje, uma tendência de
fundo no mundo empresarial?
A estas actividades empresariais de colaborar e ao mesmo tempo competir,
podemos também designar por actividades de gestão de partilha do risco. Esta
actividade não é nova, existindo desde sempre dissimulada em acordos de
partilha de mercados (que podem passar pela constituição de cartéis), de
partilha de produção (na exploração petrolífera), de partilha de custos no
desenvolvimento de uma nova carroçaria automóvel, na investigação de um novo
medicamento, na construção de uma obra de arte (exemplos: pontes, portos,
aeroportos,...), etc. No entanto, até muito recentemente, estes acordos de
colaboração só eram vulgares em situações de risco muito alto, como na pesquisa
petrolífera, em que os custos de prospecção, desenvolvimento e exploração são
extremamente elevados, podendo, em caso de insucesso levar mesmo à falência da
empresa pesquisadora. Mas, aparte estas situações de risco muito elevado, não
era vulgar as empresas colaborarem de uma forma sistemática, isto é de uma forma
estratégica, perfeitamente assumida e explicitada em planos de negócios. Também
não era sequer vulgar e usual que houvesse uma colaboração táctica mais simples
e fácil, tanto de fazer como de desfazer. Hoje, no entanto, tudo isto é
assumido, normal e permitido. Mas porque é que se desenvolveu esta necessidade
de colaborar, e muitas vezes até de ir um pouco mais longe e integrar mesmo
processos de negócio ao um nível inter-empresas?
A razões básicas e principais prendem-se, primeiro com o aumento da
concorrência resultante da globalização dos mercados e, segundo com o aumento
do grau de exigência do consumidor, resultante da existência de uma oferta
completa e alargada de produtos e serviços que já permite auferir de bons
níveis de satisfação. Estes dois factos, por si só, criam um elevado nível de
stresse em cada empresa, mas se adicionarmos o facto de que muitas empresas
estão hoje cotadas em Bolsa, e sofrem da sofreguidão dos accionistas por
números (dinheiro), elevamos aquele nível para patamares ainda mais altos. Se
acrescentarmos aos anteriores factos, o disparar dos custos de criação,
desenvolvimento, construção, promoção, gestão,... de cada vez mais produtos
e/ou serviços, estamos em presença das condições necessárias e suficientes para
o despoletar de processos de colaboração inter-empresas, nos mais variados
contextos e sob as mais variadas formas.
No entanto, ainda que muitas destas actividades de colaboração sejam
realizadas de uma forma casuística e com base em eventos exteriores à empresa,
assiste-se ao estabelecimento de um cada vez maior número de acordos de âmbito
estratégico, especialmente importantes em actividades que interagem de uma
forma sequencial numa qualquer cadeia de fornecimento. É disto exemplo a
indústria automóvel, em que desde o concessionário (distribuidor), até aos
fornecedores dos fornecedores de peças, passando pelo produtor do automóvel, já
se encontram num linha de relacionamento com base num plano de negócio. Aliás a
colaboração na definição de produtos tem sido um área em grande
desenvolvimento, especialmente apoiada pelos recentes avanços nos softwares de
gestão que utilizam a plataforma internet.
Até muito recentemente, como muitos dos processos de colaboração eram
realizados casuísticamente, a organização da sua gestão era montada com base na
participação de representantes de cada uma das entidades que firmaram o acordo.
Este forma de organização torna todos os processos de decisão muito negociados,
burocráticos e morosos, o que eleva ainda mais os custos associados à
manutenção deste tipo de colaboração, assim como gera custos resultantes de
perdas de oportunidade por “má vontade” de qualquer uma das entidades. Por
outro lado, com a complexidade crescente de todas as organizações, assim como
dos seus sistemas de informação, colaborar, integrando fluxos de informação
inter-sistemas díspares, representa também custos indesejados.
Desta forma, e na contínua procura da optimização de recursos caros e
escassos em ambiente de custos crescentes, surgiu um nova forma de colaborar,
que designo como colaboração com catalisador. Este catalisador não é
mais do que uma nova empresa, constituída pelos vários intervenientes no
processo colaborativo, com gestão e organização própria, mas fundamentalmente
com um sistema de informação próprio e que interage directamente com os
sistemas das empresas associadas. Mais ainda, esta nova empresa pode
considerar-se como resultante de um processo de “outsourcing”, tanto da mesma
área funcional, como do controlo de um processo de negócio transversal a todas
as entidades. A Internet criou as “PTX” (Private Trading Exchanges) e os
“e-Marketplaces” públicos, como catalisadores no apoio à execução de
transacções financeiras e de bens e serviços. Elas são o prenúncio de um vaga
de catalisadores, que deverão varrer todo o espaço de negócio, desde o
Marketing (veja-se, em Portugal, o caso do G7 do vinho), até à definição do
produto (veja-se a Covisint nos EUA), passando, pelas áreas financeiras, de
gestão de recursos humanos, de gestão de compras, etc. Muitos destes
catalisadores serão ASP (Application Service Providers) com soluções
“one-to-many”, mas deverão surgir em força os BSP (Business Service Providers),
que se destinguem dos primeiros no conhecimento e capacidade, não só para
disponibilizarem aplicações de software, mas também para fornecer serviços de
inovação e gestão de processos de negócio. Serão entidades de significativo
valor acrescentado para o desenvolvimento do negócio associado a cada processo
colaborativo.
Quem pensava que os intermediários acabavam com o advento da Internet
enganou-se, eles estão aí, mais fortes do que nunca, e mais importantes do que
alguma vez o foram.
Até breve,
José Pedro Gonçalves
Aspetus