DO SOCIALISMO PREMATURO PARA O SOCIALISMO DO FUTURO

(publicado na revista Vértice em Julho de 1990)

 

8. O SOCIALISMO DO FUTURO

A razao pela qual o modo de produção que sucederá ao capitalismo vai chamar-se Socialismo é, no essencial, a de praticar um acto de justiça.  Acto de justiça em relação a Marx que, apesar dos seus erros, abriu avenidas enormes ao pensamento social. Justiça tambem para todos os que deram as suas vidas, geração após geração, pela criação de uma sociedade mais justa.

Isto porque o Socialismo do Futuro terá relativamente pouco a ver com aquilo que conhecemos como Socialismo Prematuro.

Já vimos que nascerá de uma enorme aceleração tecnológica, pela automatização tendencial de todo o trabalho repetitivo, com o inevitavel abandono do assalariamento pelo menos enquanto relação predominante.

É-nos muito difícil conceber qualquer forma de organização social que não se baseie no assalariamento. Tentemos, por um momento, imaginar qual seria a reacção de um servo da gleba perante quem tentasse explicar-lhe as relações e a organização da sociedade capitalista.  Depois desse exercício perceberemos muito melhor a nossa própria incredulidade perante uma sociedade que ainda não existe.

Tentemos apesar de tudo imaginar tal sociedade:

- Deverá ocorrer um incremento enorme na utilização dos cerebros humanos

- Os computadores e as telecomunicações serao usados por forma a permitir o trabalho cooperante de milhões de cérebros em todo o mundo

- Na medida em que o trabalho será cada vez mais intelectual e  criativo pode dizer-se que os "trabalhadores" serao,  naturalmente, proprietários dos meios de produção (os seus  cérebros).

- Os individuos deverao trabalhar para projectos específicos e não  para "patrões" específicos.

- Tal como hoje se procura um patrao procurar-se-á, no futuro, um  projecto. Enormes bases de dados darao acesso a projectos cuja  conclusão pode ser relevante em qualquer ponto do planeta.

- Os "trabalhadores" já não venderao a sua força de trabalho.  O produto do seu trabalho intelectual será colocado num mercado  electrónico global.

- O pagamento já não será um salário mas sim uma parte  proporcional da riqueza gerada pela utilização da produção  intelectual.

- O trabalho por projectos permitirá a cada individuo realizar em  grau elevado as suas vocações. Também tornará mais harmoniosa a  dupla condição de "trabalhador" e "consumidor".

- A propriedade, como a concebemos hoje, está cada vez mais  dependente do "know-how". Se este evoluir mil vezes mais  depressa a propriedade perderá o significado.

- A planificação económica é uma vitória da inteligência sobre o caos. Uma economia altamente informatizada, desde a produção até  aos pontos de venda, terá uma velocidade de reacção muito mais  eficaz do que o mercado capitalista.

- As novas tentativas de parasitismo social deverao ocorrer ao  nível do controle dos equipamentos de armazenamento e  transmissão da informação. Já podem, aliás, observar-se guerras  movidas por empórios transnacionais pelo acesso ao negócio das  comunicações e dos media, com o pretexto de quebrar o monopólio  do Estado.

- As classes que emergem com o novo modo de produção parecem ser,  por um lado, a dos que vivem do sua actividade intelectual independente, e por outro, a daqueles que controlando os  satélites, os computadores e as redes tentarao, sem produzir,  apropriar-se do conhecimento gerado pelos que criam.

- Podem ser equacionados, desde já, desafios enormes ao nível da protecção da autoria intelectual e dos métodos para avaliar e  remunerar o trabalho criativo.

 

1. A LESTE DO PARAÍSO

2. OS LIMITES DE UMA TEORIA VANGUARDISTA

3. O INSUCESSO DO SOCIALISMO SEM CONSUMO

4. O SOCIALISMO PREMATURO

5. ONDE SITUAR O MOMENTO ACTUAL NO PROCESSO DE TRANSIÇÃO ?

6. O DESENVOLVIMENTO DE UMA NOVA BASE MATERIAL

7. A GESTAÇÃO DAS NOVAS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO

 8. O SOCIALISMO DO FUTURO

9. NOVO PAPEL DOS PARTIDOS REVOLUCIONÁRIOS