DO SOCIALISMO PREMATURO PARA O SOCIALISMO DO FUTURO

(publicado na revista Vértice em Julho de 1990)

 

7. A GESTAÇÃO DAS NOVAS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO

 Se uma nova base material se não encontra plenamente desenvolvida parece óbvio não haver possibilidade de se ter generalisado uma nova relação de produção em substituição do assalariamento.

O que pode ser feito, nesta fase, é entrever os contornos de tal relação, ainda em gestação.

A informatização e automatização, que caracterizam a base material nascente, não atacam o assalariamento apenas pelo facto de provocarem desemprego e outros fenómenos equivalentes. A questão é bem mais complexa.

O assalariamento é uma relação em que o trabalho é medido, e pago, atendendo à sua duração. Tal critério é cada vez mais inadequado à medida que o trabalho se torna progressivamente mais intelectual e não repetitivo.

O trabalho não repetitivo que ocorre no cérebro humano tem um carácter descontínuo. O cérebro é além disso um dispositivo multitarefa cuja gestão do tempo escapa ao controle das actuais relações de trabalho.

Podemos então dizer que o assalariamento não só está em decomposição como parece incapaz de sobreviver à base material, a grande industria, da qual nasceu.

O novo modo de produção, o Socialismo do Futuro, ao desenvolver-se sobre uma nova base material em que as tecnologias da informação serao levadas a um enorme grau de aperfeiçoamento e disseminação, terá também que inventar um substituto para o assalariamento.

Em paralelo com tal problema é necessário considerar as questões relacionadas com o sistema de propriedade. A experiência histórica mostra-nos que tal discussão deve fazer-se relativamente aos meios de produção nascentes e não acerca dos meios que constituem a base material antiga. Esse foi o principal equívoco do Socialismo Prematuro; ter pensado que bastava fazer os meios de produção do capitalismo mudar de dono.

O capitalismo não nasceu de um decreto que declarasse a passagem dos feudos para a posse dos servos, ou de um estado dominado pelos servos.  Foi uma classe emergente, a burguesia, que baseando-se na rentabilidade da grande industria teve o poder económico necessário para comprar as grandes casas senhoriais.

A questão de identificar a classe emergente na transição do capitalismo para o socialismo parece ser das de mais difícil abordagem.

Se aceitarmos, por analogia, que tanto a classe explorada como a exploradora desaparecem quando desaparece o modo de produção a que pertenciam, como aconteceu com os servos e os senhores, então devemos tentar esclarecer que classes estarao em presença quando os capitalistas e os proletários, por sua vez, desaparecerem.

Na medida em que tal não é ainda claro também não pode ser claro o tipo de relações que entre tais classes se estabelecerao.

 A questão encontra-se numa fase tal que, pode dizer-se, tem que ser abordada como tema de literatura de antecipação, e permite ainda um elevado grau de intervenção sobre aquilo que virá a ser.

Essa é uma das glórias do marxismo; dando ao homem a consciência da transitoriedade e sucessão das formações sociais possibilitou o acto de voluntarismo que originou o Socialismo Prematuro; fornecendo os métodos de análise das fases de transição permitenos hoje antever, e eventualmente condicionar, aquilo que será o Socialismo do Futuro.

 

1. A LESTE DO PARAÍSO

2. OS LIMITES DE UMA TEORIA VANGUARDISTA

3. O INSUCESSO DO SOCIALISMO SEM CONSUMO

4. O SOCIALISMO PREMATURO

5. ONDE SITUAR O MOMENTO ACTUAL NO PROCESSO DE TRANSIÇÃO ?

6. O DESENVOLVIMENTO DE UMA NOVA BASE MATERIAL

7. A GESTAÇÃO DAS NOVAS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO

8. O SOCIALISMO DO FUTURO

9. NOVO PAPEL DOS PARTIDOS REVOLUCIONÁRIOS