DO SOCIALISMO PREMATURO PARA O SOCIALISMO DO FUTURO

(publicado na revista Vértice em Julho de 1990)

 

6. O DESENVOLVIMENTO DE UMA NOVA BASE MATERIAL

Mais uma vez vamos usar a analogia com o passado. Até que ponto se desenvolveu já um equivalente da Revolução Industrial que nos permita falar da existência de uma nova base material da produção.

A Revolução Industrial, que se iniciou nos fins do século XVIII e desenvolveu impetuosamente durante a primeira metade do século XIX compreende, no essencial, a introdução da energia a vapor, a multiplicação dos parques de máquinas e a construção das redes de transportes à escala dos continentes.

Tratou-se de potenciar a capacidade muscular do homem no trabalho, de massificar a produção e de tornar acessíveis as matérias primas e os mercados.

Tendemos a esquecer que as redes de estradas e do caminho de ferro, por exemplo, não existiram sempre; a sua construção constituiu um esforço gigantesco sem o qual a produção em massa da grande industria não só não faria sentido como teria sido impossível.

O que temos então de equivalente na época actual ? Muitos responderao que está em curso a Revolução da Informação.

Sem duvida que uma revolução está a acontecer nos domínios da captura, transporte, tratamento, acesso, apresentação da informação.  Todos os dias são conhecidos novos avanços na área dos computadores, dos satélites, das redes de telecomunicações, etc.

Nós estamos a observar o fenómeno de dentro e não nos é fácil avaliar o actual estado de maturação desta mudança tecnológica.

Parece no entanto óbvio que, apesar da espectacular banalisação dos computadores, eles ainda estão longe de realisar o equivalente à potenciação da força muscular do homem, ou seja, a potenciação em larga escala da sua capacidade intelectual. A maior parte dos usos que são feitos limita-se a tratar os seres humanos como "alimentadores" dos computadores com dados, para que estes executem os "calculos" posteriormente.

Também as telecomunicações estão longe de fazer parte do dia a dia de trabalho da generalidade das pessoas.

A fase actual parece ser equivalente ao período em que apesar de já terem ocorrido  alguns desenvolvimentos tecnológicos importantes (por exemplo a energia a vapor) estes ainda não eram suficientes, num enquadramento social antiquado, para provocar a emergência da sociedade capitalista.

Também agora as comunicações e o acesso à informação estão obviamente limitados pelos interesses de parceiros privados, herdados da sociedade antiga. No capitalismo "o segredo é a alma do negócio". A informação é assim espartilhada por interesses mesquinhos.

Os senhores feudais encaravam as estradas como mais uma fonte de rendimento pela criação de portagens nos seus domínios; o mercadores eram a favor da liberdade de circulação como condição do seu sucesso e, em ultima análise, da evolução da humanidade.

Podemos assim concluir que os requisitos tecnológicos estão a acumular-se em ritmo acelerado e atingirao em breve a massa crítica capaz de levar à rotura das relações sociais do capitalismo.

 

1. A LESTE DO PARAÍSO

2. OS LIMITES DE UMA TEORIA VANGUARDISTA

3. O INSUCESSO DO SOCIALISMO SEM CONSUMO

4. O SOCIALISMO PREMATURO

5. ONDE SITUAR O MOMENTO ACTUAL NO PROCESSO DE TRANSIÇÃO ?

6. O DESENVOLVIMENTO DE UMA NOVA BASE MATERIAL

7. A GESTAÇÃO DAS NOVAS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO

8. O SOCIALISMO DO FUTURO

9. NOVO PAPEL DOS PARTIDOS REVOLUCIONÁRIOS