DO SOCIALISMO PREMATURO PARA O SOCIALISMO DO FUTURO

(publicado na revista Vértice em Julho de 1990)

 

4. O SOCIALISMO PREMATURO

A explicação para tudo o que foi dito vamos encontrá-la no plano tecnológico.

O capitalismo só se estabeleceu e generalisou com a Revolução Industrial; também o socialismo só poderá concretizar-se após o desenvolvimento de uma base material própria.

Nos países do Leste existe (existiu ?) ou não um modo de produção alternativo ao capitalismo, capaz de vir a generalisar-se a toda a humanidade, e que corresponda a uma nova fase mais avançada da organização da sociedade humana ?

Como marxistas não podemos deixar de usar este conceito para avaliar da profundidade das transformações sociais ocorridas.

O capitalismo nasce associado à grande industria mecanisada, a sua base material por excelência, assenta num determinado sistema de propriedade privada dos meios de produção (e exploração) através de relações de produção específicas, nomeadamente o assalariamento.

Tudo isto acabou tambem por se consubstanciar em determinadas formas de exercício do poder político como tradução, ao nível do estado, dos equilíbrios de forças entre as classes em presença.

Quando analisamos a transição do feudalismo para o capitalismo verificamos que, em primeiro lugar, são as relações de servidão que deixam de cumprir bem o seu papel e começam a ser postas em causa pelos seus interpretes. Este longo processo, que dura séculos, conduz em certos momentos (por ex. Revolução Francesa) a transferências do poder político, mas a verdadeira substituição do feudalismo pelo capitalismo só ocorre quando a base material nova permite generalisar a nova relação de produção, o assalariamento.

Essa nova base material torna absurdas as classes antagónicas anteriores e resolve "naturalmente" o problema da propriedade. O capitalismo não resultou da apropriação dos feudos pelos servos; a grande industria é que tornou ridículos os rendimentos e a propriedade fundiária.

Perante este quadro que significado atribuir à Revolução de 1917 e ao que se lhe seguiu ?

A revolução ocorre num momento em que o assalariamento estava longe de ter esgotado as suas virtualidades. Consiste essencialmente numa transferência do poder político (para a classe anteriormente explorada) com aproveitamento da base material do capitalismo (a grande industria) que é confiscada pelo estado.

Contrariamente à experiência histórica anterior não surge uma nova classe dominante associada a uma nova base material. Em vez disso pretende-se precisamente eternisar um proletariado sem patrões, um assalariamento sem exploração e um salário sem consumismo, como se não fossem o verso e o anverso de uma mesma moeda.

A nossa conclusão é pois a seguinte: a Revolução de Outubro não implantou o socialismo tal como a Revolução Francesa, só por si, não implantou o capitalismo.

Quando ocorreu a Revolução Francesa, a servidão em França já sofrera um acentuado processo de decomposição. O mesmo se verificara numa boa parte da Europa. Desse ponto de vista a situação estava madura para a transição.

O assalariamento, pelo contrário, continuava em expansão aquando da Revolução de 1917 (em particular na Russia) e só começou a ser verdadeiramente posto em causa quando a informática e a automatização ditaram a sentença de morte de todo o trabalho repetitivo, na fábrica e no escritório.

A Revolução de Outubro foi o início da era do "Socialismo Prematuro", que durou até aos nossos dias.

 

1. A LESTE DO PARAÍSO

2. OS LIMITES DE UMA TEORIA VANGUARDISTA

3. O INSUCESSO DO SOCIALISMO SEM CONSUMO

4. O SOCIALISMO PREMATURO

5. ONDE SITUAR O MOMENTO ACTUAL NO PROCESSO DE TRANSIÇÃO ?

6. O DESENVOLVIMENTO DE UMA NOVA BASE MATERIAL

7. A GESTAÇÃO DAS NOVAS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO

8. O SOCIALISMO DO FUTURO

9. NOVO PAPEL DOS PARTIDOS REVOLUCIONÁRIOS