O texto que se segue foi por mim, Abílio Cavalheiro,
entregue para discussão em 1990, e aceite no sector intelectual do
Porto. Na altura não teve eco. Apesar do carácter simplificado, tenta analisar
de forma “científica”, que nos é tão cara, uma realidade interna.
Apesar de 12 anos decorridos ainda apresenta bastante
actualidade. Sinal da actualidade do texto ou da cristalização do Partido?
O texto tinha um gráfico que não aparece nesta edição.
A minha contribuição destinava-se a provocar alguma
reflexão e defendia a tese que o
chamado “centralismo democrático” contém um mecanismo perverso incompatível
com a adaptação a novas situações.
Na altura fiquei com a sensação que o documento ficou
dentro das tais paredes de vidro. Cristalinamente arrumado numa gaveta? Não
sei. Ao menos agora vai arejar para o disco duro do servidor do DoteCafé...
Eis o texto original:
URGE ALTERAR
A FORMA DE ELEIÇÃO DE DELEGADOS AO CONGRESSO!
No XIII Congresso do Partido se alguém tinha dúvidas ficou patente para
quem quis ver que há uma nítida
situação de inferioridade numérica dos chamados críticos e
tal facto deverá levar os militantes, críticos incluídos, a ponderar
sob a justeza de continuar a ser desenvolvida uma actividade
de oposição à actual direcção, já que a esmagadora maioria do
Partido não concorda com as suas opiniões. Com efeito o Congresso, órgão máximo
do Partido, demonstrou à saciedade essa posição de extrema inferioridade.
Certo?
Errado! Vejamos porquê.
O método de eleição de delegados ao Congresso consiste na eleição de
um delegado por cada cem militantes. Este processo que, num quadro partidário
onde não haja divergência importante de opiniões, nada tem de condenável - a
participação no Congresso é encarada como mais uma tarefa para o militante -
pode conduzir a graves distorções em períodos de viragem na vida do Partido,
como o presente, em que, simplificando, coexistem duas correntes de opinião, a
dos que se vêem representados pela direcção
e os que nela se não reconhecem, vulgarmente designados por críticos. É tradição
do Partido que as decisões sejam tomadas por consenso. Mas o consenso exige que
sejam tidas em conta as vozes das
diferentes sensibilidades, que só serão correctamente escutadas se estiverem
proporcionalmente representadas, como sucede nos organismos de base, em que a
participação do militante é directa. No Congresso essa proporcionalidade está
muito longe de ser atingida, conforme passamos a mostrar.
Consideremos seguinte quadro simplificado com vista à análise que se
pretende fazer, em que
existam no Partido dois tipos de militantes, "não críticos"
e "críticos".
Outra simplificação consistirá em supor que a distribuição dos militantes
dos dois tipos enunciados pelas diferentes organizações é uniforme, isto é,
é igualmente provável o aparecimento de críticos, independentemente da
organização a que pertençam. Finalmente considerar-se-á que a eleição de
delegados se faz pelos votos expressos de cada cem militantes.
Aceite esta base de trabalho, vejamos,
através de um quadro, o que sucede na eleição de um delegado, para diferentes
percentagens de "críticos". No quadro que se segue que foi obtido
através do cálculo elementar de probabilidades
e que, para os eventuais interessados, se descreve com mais pormenor
em Anexo, colocou-se na primeira coluna
a percentagem de "críticos" por hipótese existente e na
segunda coluna a percentagem correspondente aos
"delegados críticos" que em média serão eleitos.
┌───────────────────────────────────────────┐
│
│
│
Q U A D R O I
│
├───────────────────┬───────────────────────┤
│ %
críticos │% críticos eleitos
│
├───────────────────┼───────────────────────┤
│
.... │
......
│
│
28 │
0.0000
│
│
29 │
0.0002 │
│
30 │
0.0006
│
│
31 │
0.0020
│
│
32 │
0.0057
│
│
33 │
0.0150
│
│
34 │
0.0366
│
│
35 │
0.0831
│
│
36 │
0.1769
│
│
37 │
0.3545
│
│
38 │
0.6713
│
│
39
│
1.2059 │
│
40 │
2.0613
│
│
41 │
3.3633
│
│
42 │
5.2521
│
│
43 │
7.8692
│
│ 44
│ 11.3382 │
│
45 │
15.7439
│
│
46 │
21.1110
│
│
47 │
27.3891
│
│
48 │
34.4459
│
│
49 │
42.0722
│
│
50 │
50.0000
│
└───────────────────┴───────────────────────┘
Pela análise do quadro vê-se que, na hipótese do Congresso ser
constituído por 2000 delegados, só quando a percentagem de críticos eleitos
for de 0.05%
é que será eleito o primeiro delegado crítico; essa percentagem
corresponde a um quadro partidário com 34 a 35% de críticos. Para serem
eleitos 10 delegados críticos em 2000 (0.5%) é necessário que a sua
percentagem real esteja entre 37 e 38%.
O gráfico seguinte, que foi obtido a partir da tabela anterior mostra a
curva correspondente, estando a
percentagem real de críticos representada em abcissa e em ordenada a
percentagem de críticos que em média serão eleitos.
Figura ausente neste texto mas presente no original
É evidente que a realidade deverá ser um pouco
diferente, que a distribuição de críticos não é exactamente uniforme, que
na eleição de delegados não estão presentes cem militantes ainda que aqui se
coloque o problema de quem serão os ausentes, etc..., sendo difícil estimar em
que sentido essas diferenças se reflectem.
Mas, ainda assim, o quadro apresentado é preocupante, quando se apela à
participação de todos, e a metodologia de eleição adoptada vai forçosamente
privar uma parcela importante de
ver representada a sua opinião nas
decisões finais, que reflectem a posição maioritária é certo, mas que pela
falsa impressão de não representatividade
no Congresso, ficam subalternizadas de uma forma que está longe de
corresponder à proporção real das sensibilidades.
Aos que contestam que, a não se proceder assim, se poderá dar a
eventualidade de a direcção do Partido se vir a transformar num
mini-parlamento, perdendo parte da sua eficácia, o que parece argumento
duvidoso, contrapõe-se a situação actual, sobre a qual supomos ninguém poder
duvidar que seja uma situação
aberrante, com possibilidades de rapidamente se tornar explosiva; basta atentar
na subida do gráfico anterior, em que a partir de
40% o aumento de 1% é cada vez mais ampliado,
tornando--se num processo imparável.
Este modo de eleição do
Congresso que supomos ser característico
do centralismo democrático, pode
ajudar a explicar como puderam ser contidas situações de descontentamento
interno noutros partidos, com um efeito de acumulação que a certa altura se
transformou numa avalanche incontrolável, com a dinâmica adquirida na referida
zona crítica dos 40%. É possível manter-se uma situação de desajustamento
até um ponto excessivamente tardio, mantendo um falso convencimento de que tudo
vai bem a olhar pelo que se passa no Congresso e subitamente desmoronar-se toda
essa aparente estabilidade. O mesmo
mecanismo que permite uma
estabilidade reforçada perante
alguma contestação interna, pode, em circunstâncias adversas à direcção,
provocar um movimento imparável de derrube da mesma direcção, um pouco
semelhante ao clima psicológico vivido pela multidão da parábola "O Rei
Vai Nú", que será a sensação reinante se subitamente começarem a
aparecer muitas vozes contestatárias onde ainda há pouco só havia
unanimidade. Acresce que, devido à deficiente
comunicação horizontal dentro do Partido que decorre do centralismo democrático
em que, a rigor só é possível em assembleias de base e sempre que um orgão
dirigente entenda ser conveniente divulgar informação dimanada de uma organização
a jusante, a situação real de descontentamento pode ser escamoteada na prática,
ficando cada organismo com a sensação de que é um caso particular já que, a
avaliar pelo Congresso a situação no geral é muito diferente. Mais, os
descontentes acabam por se considerar desfasados do colectivo partidário e vão-se
afastando, havendo um esvaziamento que pode prolongar indefinidamente uma situação
que, a haver maior representatividade de opiniões, teria que ser encarada
frontalmente e resolvida pelo próprio Congresso. E a própria direcção, se não for devidamente informada, pode cair na mesma tentação
e proceder a uma avaliação grosseira da realidade interna, tentando ver uma
falsa proporcionalidade onde ela está muito longe de existir. Estamos sem dúvida
na presença de um excelente mecanismo de preservação a médio prazo, mas com
péssimas características adaptativas a longo prazo.
Para concluir, se consultarmos o Quadro I veremos
que é legítimo supor que
neste momento no Partido existem
mais de 35% de militantes
descontentes com a direcção que
promoveu o XIII Congresso. Esta
é a cota necessária para, em média, eleger
um crítico e supomos que o seu número foi superior... Está-se perante uma
daquelas situações que normalmente se caracterizam recorrendo à imagem de um iceberg; só que neste caso a parte afundada pode ser
70 vezes mais volumosa do que a parte visível...
Supomos que estes números devem levar a direcção a pensar no seu real
significado e a tirar daí as necessárias ilações. Afigura-se-nos que no
essencial há dois caminhos: ou se vai atendendo aos que pretendem ver
introduzidas mudanças de fundo, alargando o debate e poder de intervenção
para os que discordam, ou se vai tentando manter a todo o custo a situação no
limiar da subida incontrolável do descontentamento, à custa do afastamento,
marginalização e denegrição pública dos críticos mais destacados, até que
outro muro caia e já então seja muito difícil ao PCP inflectir a política
que tradicionalmente tem adoptado em relação aos militantes que publicamente
afirmam não comungar das perspectivas da direcção.
Em face do exposto solicitamos:
1) Que o
presente documento seja divulgado nos restantes organismos do Sector
Intelectual;
2) Que a
direcção se pronuncie sobre a necessidade de alterar o
sistema tradicional de eleição de delegados aos congressos;
3) Que a
Organização do Ensino Superior do Porto vá sendo informada das reacções que
porventura surjam na sequência desta
exposição.
ANEXO
Seja p a probabilidade de se encontrar um crítico. Seja x o número de
críticos presentes numa assembleia de 100 militantes para a eleição de um
delegado. Seja P(x) a probabilidade de se encontrarem x críticos numa
assembleia de 100 militantes.
Para que a assembleia eleja um representante dos críticos é necessário
que tenha mais de 50 eleitores críticos; a probabilidade será dada pela soma
das probabilidades de haver 51, 52, ... , 100 críticos. Cada uma destas
probabilidades é dada pela lei binomial, isto é, a probabilidade
100 x
100-x
P(x) = C
p (1-p)
x
a probabilidade de ser eleito um crítico será
100
P(eleito)
= S P(x)
x=51
No entanto para evitar o extenso cálculo
anterior pode aproximar-se a lei binomial pela lei normal, com
média
= 100 . p _________________
desvio
padrão = Ö 100 . p . (1-p)
e calcular-se a cauda à direita da variável reduzida
correspondente a 50. Tomemos o exemplo p=0.4
( 40 % de críticos):
média = 100 . 0.4 = 40
___________________
desvio
padrão = Ö 100 0.4 0.6
= 4.898979
50 - 40
z =
────────── = 2.0412
4.898979
recorrendo a uma tabela da lei normal reduzida verifica-se
que a cauda da curva à direita de 2.0412 corresponde a uma probabilidade de
0.0206, ou seja, a 2.06 críticos em 100, isto é, em média, na hipótese de
haver 40% de críticos eles ver-se-ão representados por apenas 2% dos
congressistas.
Repetindo este procedimento para as diferentes percentagens obtém-se o
QUADRO I.