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A
PROPÓSITO DE RUMO À MUDANÇA DE JOÃO AMARAL
(lido na apresentação do livro, no Hotel Altis)
De
uma forma geral, em eventos desta natureza, dá-me para improvisar. Não porque
seja um bom orador, antes pelo contrário, mas porque tenho dificuldade em
escrever.
Desta vez ,optei por trazer umas linhas escritas. Moderadamente longas, por não
querer abusar da paciência dos circunstantes. As pessoas não vieram aqui para
me ouvir, mas para estar com João Amaral no lançamento, em boa hora, do seu
oportuno "Rumo à Mudança".
As razões por que optei pelo texto escrito são duas. Uma, a menor e talvez
divertida, é que isso talvez me permita o expurgo dos soundbytes, para arrelia
e enfado de alguns senhores jornalistas; a outra, ao contrário, muito séria,
é que não quero ferir, por inadvertência, susceptibilidades respeitáveis,
nem acelerar o remoinho de pequenos ódios e ressentimentos larvares que vai em
alguns segmentos do PCP. A acreditar nas notícias que me chegam de vários
lados - e a leitura do 'Avante' não infirma esses rebates,-- gastam-se muitas
energias no partido a desfazer reputações, a prevenir conspirações e a
escandir slogans.
Arquitectar um mundo de paranóia, em que tudo adquire um sentido, em função
de temores e de sobreessaltos falseados, acaba por ser extremamente confortável.
Toda a explicação ficcionada do mundo é tranquilizadora e resolve as
complexas questões do sentido antes sequer que elas sejam equacionadas. E obtém-se
este estranho paradoxo humano que é o do conforto aninhado dentro do
desconforto dum alarme.. Alimentam-se as falsas questões para evitar as
verdadeiras;
Envolver-se no mexerico, no disseque disse, mesmo na calúnia (o tal venticello,
em que fala o libretista de "O Barbeiro de Sevilha") é um pendor
muito vulgarizado nas sociedades humanas. Há mesmo quem tire um prazer perverso
dessa actividade. Porém, não é isso que se espera, de uma forma geral, do
clima interno dum Partido Comunista. Não é aceitável que aí, uma vez mais,
um entretenimento substitua uma reflexão.
Repetir slogans às vezes é útil, é necessário e é mobilizador. Uma
manifestação sem palavras de ordem é pior que comida sem sal. E alguns
slogans são tão imaginativos que talvez possam ser alinhados, honradamente,
entre as formas embrionárias do discurso literário. Mas nós não passamos a
vida, por mor dos nossos pecados, em manifestações enfeitadas de bandeiras e
palavras de ordem. A realidade quer sempre escapar-se e atraiçoar. É preciso
procurar incansavelmente, vigilantemente, novos quadros de explicação. E não
é nas sonoridades vibrantes do slogan que vamos encontrá-los.
Pensar! Repensar. Há uma incompatibilidade de raiz entre a procura da verdade e
os três comportamentos que eu mencionei acima: o recuo paranóico, o festim da
maledicência, e o enunciado obcessivo de slogans.
Mas porque é que as pessoas no PCP se hão-de pôr a pensar? Seria
perfeitamente descabido aparecer alguém numa outra formação política
qualquer a convidar os militantes à reflexão. Nos outros partidos - e
deixem-me usar com algum gozo esta designação tradicional e um tanto vaga- nos
partidos burgueses, quem pensa são os pensadores. Os aderentes estão
dispensados. Porque é que se há-de exigir outra coisa do PCP?
Porque o PCP é um partido diferente dos outros. É um partido que nasce de uma
concepção reflectida do mundo e da vida. Ainda traz memória das luzes e da
razão. É um lugar onde se deve procurar a verdade. Ou, pelo menos, saber
prescindir da mentira.
Dirão que estes elevados conceitos, como Verdade, Justiça, Isenção,
Cidadania, tantas vezes repetidos, soam muito ao chamado grand-mot. Nas nossas
sociedades tendemos a encará-los com algum cinismo. Nos casos mais subalternos,
com algum descaro.
No entanto, devo dizer-lhes que desconfiaria fortemente de um juiz que não
acreditasse na Justiça. Como desconfio dos jornalistas que são contra a
objectividade.
São grandes princípios de referência que estruturam e orientam aquilo que de
melhor existe em nós. E não esqueçamos que um dos epítetos do demónio é
"O Pai Da Mentira".
Os antigos asseveravam que a verdade está no fundo de um poço. Talvez devamos
contentar-nos com as aproximações. Confúcio dizia: 'Persegue a verdade. Não
a atingirás, mas não a percas nunca de vista.'
Eu sei que durante muito tempo, a invocação de grandes princípios abstractos,
daqueles que atravessam as civilizações, era carimbada como manifestação de
pensamento pequeno burguês, espécimen proteiforme tão complicado como o
monotrémato, mas que, ao contrário deste, nunca me consta tenha sido
encontrado. Mas também sei, e todos nós sabemos, os resultados trágicos a que
tais reduções conduziram. Praticava-se o relativismo ético, fundado em
considerações sociológicas simplistas, mas pretensamente científicas. Deixou
de se pensar. Proibiu-se que se pensasse. Veio o obscurantismo. Instalou-se o
Terror.
Ora eu insurjo-me contra qualquer tendência que procure fazer tábua rasa,
dentro do PCP, dos grandes princípios em que se funda a nossa civilização.
Insisto! É justamente contra o abandono de princípios que eu me manifesto
intransigentemente.
Porque eu penso que há um mal e há um bem. Se não pensasse, não tinha feito
escolhas. Penso que isto não é tudo a mesma coisa. Penso que o que está em
jogo não são as cores dos Montecchios ou dos Capuletos. Penso que entre a
esquerda e a direita há formas diferentes de encarar a verdade e a mentira, a
justiça e a injustiça. A direita tende para o preconceito e para o egoísmo.
Insere-se o milagre de Ourique na História porque convém. Condena-se Dreyfus
porque é judeu. Penaliza-se a Interrupção voluntária da gravidez porque é
preciso que o outro seja humilhado.
Aqui há uns anos, os católicos costumavam dizer que uma das maiores artimanhas
do diabo era convencer os homens de que ele não existia. Quando se faz este
cotejo entre esquerda e direita a frase vem-me sempre à ideia. E ocorre-me
precisamente que um das maiores artimanhas da direita é a de convencer de que não
há diferenças entre direita e esquerda. De aproveitar coincidências momentâneas
de perspectiva, para sustentar que as grandes questões são consensuais.
Quanto ao resto, o fascismo é como se nunca tivesse existido. Os que o viveram
e que com ele conviveram tranquilamente, e lucraram. com o sofrimento dos mais
pobres e mais fracos, fazem-se esquecidos e vão disfarçando. Os mais jovens
branqueiam. Mas quando chega o momento das grandes decisões, na altura de fazer
as contas, a diferença estala e ressoa. Vejam agora este governo que nos coube.
No meio de tanto sarrabulho trapalhão, à maneira dos irmãos Marx, o lema
parece ser : 'nos muito ricos, nos muito mafiosos e nos patos-muito-bravos não
se toca nem com uma flor'.
Assistimos recentemente a um processo de degradação lamentável, na área da
esquerda, que se traduziu no apoio a um governo que sistematicamente e, -
convenhamos, - com alguma falta de pudor, fez o jeito aos interesses instalados.
Houve uma degenerescência tão óbvia e tanto jeito se fez, que os interesses
instalados se estabeleceram naturalmente no poder, através dos seus empregados.
Foi praticamente uma entrega, uma rendição, sem capítulos. Estes que lá estão
agora já não precisam de fazer o jeito. São eles mesmos os interessados, ou
os seus mandatários.
Apesar de tudo há uma diferença - penso que as mentes menos obstinadas já
notaram - entre fazer o jeito ou exercer uma propensão para a malfeitoria própria
e natural.
Ora há mais que uma maneira de fazer o jeito. Pode-se fazer o jeito, querendo;
pode-se fazer o jeito sem querer. E aqui encontramos uma bizarra convergência
entre a labilidade nos princípios e nas opções de uma certa tendência do PS
e o arreganho sectário de uma certa tendência dentro do PCP. Do que se tem
passado no PS não vou ocupar-me agora ( e se calhar nunca mais), mas o que se
passa no PCP preocupa-me, porque é aí que estão ligados os meus afectos e a
minha história pessoal. Também porque o PCP tem um património de luta
corajosa, não raro heróica, pela Democracia e pela Liberdade, e sinto esse
património em risco. E ainda porque estimo e respeito muita gente dentro do meu
partido, mesmo quando as nossas concepções sobre a vida são como o dia e a
noite.
É que eu estou certo de que o progressivo isolamento do PCP, o seu fechamento
em moldes quase esotéricos, a sua linguagem estereotipada, as suas formas
organizativas próprias da clandestinidade, as suas reuniões ritualizadas, com
o consequente descrédito e alheamento do povo português - é o que mais convém
à direita. Talvez haja em sectores políticos e sociais que nada têm a ver com
os comunistas, uma certa curiosidade pelos movimentos críticos e renovadores
dentro do Partido. Há sempre algum dramatismo nestas coisas que chama a
curiosidade dos humanos. Este fenómeno é ancestralmente conhecido. Mas, não
haja dúvidas, a direita prefere um partido fraco, isolado, desacreditado, a um
partido atento às transformações sociais, aos novos ganhos da ciência e da técnica,
prestigiado e com capacidade de mobilização. Ou seja, um partido que não dê
o flanco. Que não faça o jeito. Quanto aos bolores e os cotões podem sempre
os adversários varrê-los para debaixo do tapete.
Há talvez doze anos que eu ando a dizer estas coisas dentro do Partido e também
fora dele. Talvez as tenha dito sempre com inépcia ou inoportunidade. A verdade
é que não têm feito vencimento junto da direcção do PCP. Se calhar, há
boas razões para não me levarem muito a sério. Sou ficcionista, de certo modo
administrador de delírios, faço parte do mundo mais ou menos trapaceiro e
confuso dos arlequins e dos cómicos.
Mas quando questões civilizacionais, como o da cidadania, questões actuais,
como a da construção da Europa, ou a da importãncia do reforço do Estado
democrático, questões do Partido, como a da implantação popular, a da
linguagem, a da organização, a do livre debate democrático, são colocadas,
prudentemente, com sentido politico, sempre com a preocupação de não
precipitar rupturas, por um quadro altamente qualificado como João Amaral, sem
que seja dada resposta, ou com resposta torta - é porque há uma verdadeira
vontade de não querer perceber.
"Nenhum projecto, por mais sedutor que pareça, merece ou justifica o
sacrifício dos valores da cidadania". Há alguém que não esteja de
acordo com esta afirmação que eu estou a citar de João Amaral? Na direita é
provável. A um .pensamento autoritário não repugnará a afirmação da
desigualdade entre os homens. Mas, na esquerda? Alguém? É preciso remontar à
tagarelice dos velhos compendios soviéticos - que os da minha geração arrumam
na estante mais alta ou mais distanciada - para encontrar a refutação desta
afirmação de princípios. Estaremos em algumas áreas do PCP ainda informados
pelo marxismo-leninismo de compêndio, o tal que faz revolver na tumba os velhos
sábios como Marx e Engels? A pergunta é obviamente retórica. Todos pudemos
ler no "Avante" um circunspecto artigo sobre vírus e origens de
classe. E a resposta está dada. Há, sim, senhores.
Infelizmente. E logo vêm à ideia reminiscências de um célebre escrito em que
Jdanov chamava "rameira" à poetisa Akhmatova.
O título "Rumo à Mudança" joga obviamente com o "Rumo à Vitória"
de Álvaro Cunhal. Em certo sentido, Álvaro Cunhal tinha então razão. A vitória
deu-se. Não exactamente como ele previa. Nem com os mesmos protagonistas. Mas a
verdade é que o país em que hoje vivemos é completamente diferente, do pobre,
tristíssimo, Portugal daqueles tempos.
O livro de João Amaral vai assinalando, artigo a artigo, intervenção a
intervenção, uma construção estruturada em que, curiosamente, ao longo dos
anos, as várias peças se iluminam umas às outras, sendo que as do passado
esclarecem, não raro, as do futuro e as do presente projectam novos sentidos
sobre as do passado. Há uma malha inteligente, como uma filigrana quase
imperceptível que liga estes artigos uns aos outros, independentemente das
circunstâncias em que foram escritos ou dados a conhecer. Ocorre o conceito
aristotélico de "sistema". Nada daqui pode ser retirado sem que o
conjunto se ressinta. Efeito sobremaneira curioso, atenta a dispersão dos
textos, no tempo e no modo.Ainda que a mudança que João Amaral antevê venha a
dar outras voltas, porventura imprevistas, uma coisa podemos ter por certa. Os
impulsos generosos que fundaram e mantiveram o PCP, à custa de sacrifícios heróicos,
a magnífica gente que por lá passou e passa, não merecem o confinamento a uma
igrejola desolada a que nem sequer se vai.
Gostava de enfatizar que a maior parte das pessoas que, desde há anos se têm
vindo a bater, de uma forma ou de outra, contra as aflorações de estalinismo
dentro do PCP ( Estalinismo é a palavra, não há que recear dizê-la, como João
Amaral faz, muito abertamento no seu livro) não querem destruir o Partido,
querem é evitar que o Partido soçobre. Querem um mundo melhor, não querem um
mundo pior.
E quando se propõem excomunhões, e se manipulam sentimentos e medos, ocorre-me
aquela história do reformador João Huss, condenado à fogueira por heresia.
Quando as chamas já iam altas, uma velhinha muito velhinha, muito seca e magra,
veio trazer mais um molho de lenha e acrescentou o fogo. "Oh, Santa
simplicidade!", teriam sido as últimas palavras do reformador (parece que
às vezes os reformadores têm bons ditos...).
E eu gostaria que, em nenhum momento, fosse favorecida no Partido esta
"santa simplicidade" de mal fazer.
Chegada esta altura do discurso, eu, francamente, não sei se me estou a sair
muito bem. É a primeira vez que faço a apresentação de um livro que trata de
política e nem sempre me sinto muito à vontade nesta disciplina de escrita.
Acontece que não combinei nada com o João Amaral. Ou seja: este meu texto
"não foi visto", como se dizia no PCP em tempos remotos.
Admito que, num ponto
ou
noutro, ou até em muitos, o João Amaral possa não estar de acordo comigo.
Seja como for, tenho em meu abono a sinceridade e a boa vontade. De qualquer
forma, tive muito gosto em corresponder a este convite para apresentar o
"Rumo à Mudança", mesmo correndo o risco do desajeito, dada a admiração
que tenho pela descontraída presença, reflectida inteligência, e alto sentido
cívico de João Amaral. Pena é que este meu gosto seja insuficiente para
compensar as ingratidões e desconsiderações de que uma tal figura tem sido vítima
.
Diz uma certa personagem de Shakespeare que a brevidade é a alma da sabedoria.
Como não desisti de ser sábio, vou calar-me já. Vou ser breve, ao menos a
partir de agora.
Ouçamos João Amaral.
5 - 6 - 2002
Mário de Carvalho
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