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Certezas
políticas, vícios partidários
Se quisesse resumir numa expressão simples e facilmente captável por toda
agente o que hoje distingue os comunistas entre si, diria que para uns, a luta
continua porque a vitória é certa, e para outros, a luta continua porque a vitória
é incerta. É, em minha opinião, na dicotomia certeza/incerteza que, em
Portugal, se deve procurar o essencial e a raiz das contradições que
actualmente se verificam. Foi a progressiva tomada de consciência da tensão
contida na incerteza da vitória final, que criou as condições subjectivas
para a instalação e o desenvolvimento da divergência, relativamente à
inevitabilidade da vitória do campo comunista e ao modo como a alcançar. Tudo
o resto é mais uma consequência destas duas concepções de organizar o
partido e dirigir a luta do que a sua causa.
Quando, em tese, a vitória é dada como certa, a luta política constitui-se
como um acto litúrgico centrado na organização partidária, enquanto
super-estrutura que sabe, comanda e dirige as operações de transferência da
velha sociedade capitalista para a nova sociedade comunista. Uma espécie de
mudança de instalações, em que o partido desempenharia o papel de
transportadora que conhece antecipadamente o ponto de partida, o trajecto a
percorrer e o ponto de chegada. Nesta perspectiva, a organização partidária
desenvolve-se no sentido de um dispositivo não dialéctico, auto-programável,
estatutariamente consolidada, funcionando segundo regras historicamente
determinadas, em que impera o sistema de valores assente na obediência
disciplinada a uma direcção, a gestão atrabiliária dos factos e dos
acontecimentos, e a ocultação da informação como fenómeno de dominação e
de poder. Esta é uma visão da ideologia que tem como corolário a ideia da
superação do capitalismo, não pela via da luta de classes, mas pela via da
reengenharia da humanidade. Um género de lego social em que a única incerteza
retórica admissível seria o intervalo que separa “um passo à frente” de
“dois passos atrás”.
A confiança ilimitada e salvífica no determinismo histórico e a leitura dogmática
e unilateral que faz dele, levou a direcção do partido dos comunistas
portugueses a derivar por um tipo de gestão corrente da actividade partidária
e da intervenção política, oscilando entre uma visão contabilística da
participação na vida parlamentar e a necessidade de demonstração anual de
prova de vida através de umas quantas manifestações antecipadamente agendadas
e programadas para o ano todo. Não se dando conta que, em política, a certeza
é geradora de todos os vícios partidários, o principal dos quais é a preguiça
ideológica.
É por isso que não se deve confundir certeza com competência e capacidade
para fazer as coisas certas. Isso só é tendencialmente verdade se se estiver
apto a dominar e a gerir os mecanismos que melhor combinam a teoria, a evidência
dos factos, a conjuntura e os objectivos. Não é isso, porém, o que
actualmente se passa com a direcção do PCP. Quanto à teoria, está definitiva
e messianicamente armazenada nas obras completas dos clássicos; os objectivos,
são alvos móveis em que raramente consegue acertar; a conjuntura, é vista
como uma carga de trabalhos de que se devia poder prescindir; a evidência, ou
se cola à grelha de análise dos dirigentes ou é rasurada da realidade partidária.
Nesta mistura de certezas não sobra, naturalmente, qualquer espaço para o
contraditório.
A teoria dos factores externos desenvolvida pelos dirigentes comunistas para
explicar os seus fracassos de há dez anos a esta parte, é disso o melhor
exemplo. Mas tão grave como esta explicação, e tão contrária à melhor
tradição dos comunistas é, por exemplo, os dirigentes do PCP, por intermédios
dos seus analistas oficiais, esconderem-se atrás dos resultados eleitorais do
PCF, nas presidenciais e legislativas, para branquear os seus próprios erros e
derrotas. Essa é a face da certeza já em adiantado estado de empedernimento.
A introdução da incerteza na luta política dos comunistas tem vários
efeitos. O principal é considerar que o comunismo é mais uma caminhada da
humanidade no sentido da superação do modo e das relações de produção
capitalista, do que um ponto de chegada, cuja antecâmara conhecida era o
sistema existente nos países do bloco soviético. Se tomarmos esta premissa
como hipótese de trabalho, a incerteza colocada na vitória do comunismo torna
imperativa e inadiável a necessidade de a cada processo a desenvolver nessa
caminhada e ao conjunto de processos no seu todo, corresponderem outras tantas
metas pelas quais se tem de lutar, para atingir os resultados desejados.
Não chega aos comunistas manterem-se no papel de espectadores da agudização
das contradições no seio do capitalismo, encostados à soleira do que há-de
chegar. É-lhes exigido que intervenham activa e assertivamente no sentido de
irem conquistando posições e consolidando formações não capitalistas no
seio da própria sociedade capitalista. O exemplo que melhor ilustra a
incompreensão da direcção do PCP pela necessidade de uma reorientação
estratégica deste tipo foi a maneira como geriu politicamente o processo da
reforma do Serviço Nacional de Saúde, que ficou conhecido por SNS21. Apesar do
seu indesmentido sentido progressista, os dirigentes comunistas o mais longe que
conseguiram ir foi oscilar entre a indiferença e a oposição a este projecto,
porque ele tinha a marca e a assinatura de um governo do partido socialista.
Trabalhar sobre a incerteza obriga, por outro lado, a considerar que a base
social de apoio a este tipo de estratégia política, e o correlativo sistema de
alianças, deva ser obrigatoriamente ampla, diversificada, porventura recheada
de elementos contraditórios, mas que pode ser plenamente conseguida se, em vez
de se tomar o marxismo e o leninismo como um criptograma, se considerar, na
expressão de Umberto Eco, como obras abertas interpretáveis e orientadoras da
visão política do que se pode ir configurando como uma sociedade comunista.
Como não é isto que se está a verificar no PCP, assiste-se a uma espécie de
greve dos acontecimentos, como já Jean Braudillard designou o afundamento do
bloco soviético.
A tentativa e erro, o principal e mais experimentado suporte metodológico de
toda a aprendizagem, política nomeadamente, está no centro da aproximação da
vitória do comunismo pela via da incerteza. Não para se persistir no erro mas
para centrar a intervenção política na tentativa, com a consciência de que o
erro é uma das contingências que se pode verificar. Que pode ser tão
importante como o sucesso, desde que se esteja apto e preparado para proceder às
respectivas correcções. É neste aspecto que a questão da organização
partidária assume tanto relevo e é tão importante. Numa lógica em que a
incerteza dos resultados da acção política é geradora de uma forte e
contraditória tensão partidária, o risco da incerteza se converter numa vitória
irreversível da certeza só tem lugar na condição de a rotina, a preguiça, o
raquitismo teórico e a repressão interna serem eleitos como os principais
valores partidários. É para prevenir estes riscos que advogo um partido mais
de revolucionários do que de funcionários. Pela simples razão de que a vitória
não é certa.
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