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OS HERDEIROS DO AUSTRO-MARXISMO
ALGUNS COMENTÁRIOS
Chegou no dia 13 do corrente ao nosso fórum, pela mão de Jorge Figueiredo,
um texto de Miguel Urbano Rodrigues (MUR) sobre “Os Herdeiros do
Austro-Marxismo”. Este artigo, que foi publicado inicialmente em diversos
“sites” e jornais da América Latina, foi transcrito do “resistir.inf”,
que pode ser consultado aqui ao lado em “partidos e sítios”
Pressurosamente, Jorge Figueiredo remeteu-o para o nosso fórum, mas como a
vivacidade da discussão produz um manancial de respostas e contra-resposta,
rapidamente o artigo e as opiniões que suscitou foram remetidos para os
“arquivos do esquecimento” do nosso amigo Fernando Redondo. Gostaria, no
entanto, de voltar ao assunto, pois a “pressa é inimiga do bom” e estes
temas merecem ser deglutidos com o tempo necessário para preparar uma resposta
que sendo irada, tem que necessariamente ser minimamente fundamentada.
MUR com aquela prosa grandiloquente, com que nos mentia no “Diário” sobre a
amplitude das manifestações em que participávamos, decide ao longo deste
artigo quem são o revolucionários e quem já se passou para o campo do
inimigo. No fundo, com uma erudição histórica um pouco aldrabona, não vem
mais do que repetir, por outras palavras, essa outra pérola do estalinismo, que
é o artigo que o Domingos Abrantes escreveu para o “Avante” sobre a
classificação dos revolucionários consoante o número de estrelas dos
restaurantes em que almoçam. Repetiria aquilo que já escrevi para outro artigo
que andou a circular por este fórum, que estes textos “parecem ressuscitados
do fundo da história, de uma época (1948) em que o escritor soviético
Fadeieve chamava a Sartre “essa hiena dactilógrafa, esse chacal munido de uma
caneta”.
Mas passemos aos factos. Primeiro, com que ingenuidade MUR se refere ao
“apagamento” de Trotski na URSS. Trotski não foi “apagado”, foi pior do
que isso, foi assassinado, por interposta pessoa, por Staline. É interessante
que MUR venha agora deitar umas gotas de água benta sobre alguém que foi
sempre considerado, ele e o seu grupo, como um dos inimigos principais do
movimento comunista. Muito se escreveu contra as tendências trotskista no nosso
movimento e muito já depois da denúncia do “culto da personalidade” feita
por Kruschev no XX Congresso da URRS. Trotski foi das personagens históricas da
Revolução de Outubro, mortas no tempo de Staline, que nunca foi reabilitado.
Vamos agora ao principal. MUR fala do encontro de Trotski com os dirigentes da
social-democracia austríaca antes da I Guerra Mundial. Como não disponho da
edição da “Minha Vida” de Trotski, terei que acreditar que este se refere
àquelas personagens como austro-marxistas, a verdade é que só depois da I
Guerra é que a principal produção teórica e a acção das personagens
citadas por MUR veio a ser denominada como austro-marxismo, principalmente o período
entre 1918 e 1934, quando a República Austríaca foi esmagada pelo regime
autoritário do cristão-democrata Dollfuss e depois, posteriormente, pelos
nazis.
Os ensinamentos políticos, entre as duas guerras, desta República Austríaca e
principalmente da “Viena Vermelha”, é hoje um facto indiscutível e Otto
Bauer, que foi líder do partido Social-Democrata Austríaco, de 1918-34, um teórico
com valor.
Escrevia ele em 1919: “devemos construir a sociedade socialista gradualmente,
através de uma actividade organizativa e planeada, avançando passo a passo
para um objectivo claramente definido. Cada uma das medidas que hão-de
conduzir-nos a uma sociedade socialista tem que ser cuidadosamente estudada.
Deve não só conseguir uma distribuição mais equitativa dos bens, mas também
aumentar a produção; não deve trabalhar no sentido de destruir o sistema
capitalista de produção sem, simultaneamente, estabelecer uma organização
socialista que produza bens pelo menos tão eficazmente” (citado por Donald
Sassoon, “100 Anos de Socialismo”. Círculo dos Leitores, 2001)
Segundo o mesmo Donald Sassoon “o conceito estratégico central das políticas
do austro-marxismo era o de “revolução lenta”, ou a construção gradual
de uma sociedade socialista no sei das entranhas do capitalismo”. Princípio
que não é tão revisionista, como MUR nos quer fazer crer ao longo de todo o
seu artigo, que até ele próprio o defendia, no seu livro “Opções da Revolução
na América Latina”(Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1968), utilizando o conceito
de “reformismo revolucionário”, que foi retirar a André Gorz, aí
abundantemente citado.
Podemos igualmente encontrar, e esse livro de MUR é hoje uma caixinha de
surpresas, um capítulo dedicado à revisão positiva do marxismo (pag. 213),
quando, citando Lukácz, atribui a Lenine a condição de revisionista, mas
igualmente a Nikita Kruschev, afirmando “a política de coexistência pacífica
– confessemo-lo sem rodeios - nasceu de uma opção revisionista, na medida em
que representa a ruptura com a tese de Lenine sobre a inevitabilidade das
guerras geradas pelo imperialismo. ... Assim como Lenine rompeu com a tese de
Marx sobre o começo das revoluções proletárias nos países mais
desenvolvidos, Kruschev rompeu com a tese de Lenine sobre as guerras com o
imperialismo”. Bem escrevia MUR em 1968. Mas mais, (pag. 5) “o facto de
encarar pensamento e acção como componentes indissociáveis da minha realização
individual não obsta que estude as ideias de intelectuais marxistas afastados
de uma militância revolucionária directa e aprenda nos seus trabalhos muita
coisa útil”. Como era diferente o MUR daqueles anos, em que tudo se
encaminhava, com a complacência da URSS, para uma maior tolerância e para uma
procura de novos caminhos, do MUR de hoje, enquistado, tal como os seus
companheiros “ortodoxos”, incapaz de compreender o mundo em mudança.
Como a prosa já vai longa, deixemos para outro artigo, o que é ser revolucionário
hoje nesta Europa capitalista e da “globalização neo-liberal” e como esta
ideia de construção gradual, “revolução lenta”, ou retomando um conceito
de Gramsci de “guerra de posição” é mais consentânea com aquilo que se
hoje passa no mundo desenvolvido.
Lisboa, 16 de Junho de 2002
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