Por
uma nova abordagem
estatística do assalariamento
Lx, 21/6/2002
No quadro da
discussão, que começa a ganhar importância, acerca da degradação do
assalariamento na sociedade actual impôe-se rever as ideias feitas e encontar
novos modelos para medir as eventuais tendências. A ideia que,
com ou sem razão, reune talvez maior consenso é a de que o assalariamento
tende a abranger uma percentagem cada vez maior da população activa. Tal
facto, a ser verdadeiro, entra em contradição com a sensação empírica de
que o assalariamento se encontra em “crise”. Se
considerarmos as estatísticas do INE de forma directa temos que os
assalariados, os trabalhadores por conta de outrem, representavam: 1974 -
2.415.000 -
61,8 % da População Activa. 1980 -
2.627.200 -
61,2 % da População Activa. 1990 -
3.311.600 -
66,4 % da População Activa. 1998 -
3.386.300 -
67,9 % da População Activa. São estes números
que explicam as ideias feitas neste domínio. Pensamos que
é necessário fazer uma nova abordagem no plano estatístico, muito mais
penetrante, para corresponder ao significado da discussão em curso. Essa discussão
tem a ver com a obsolescência do assalariamento, enquanto relação de produção,
no quadro do modo de produção capitalista. Não iremos
aqui discutir as causas profundas, nomeadamente tecnológicas, que conduzem à
inadequação do assalariamento nas novas condições materiais de produção. O que está em
causa é determinar se, no âmbito da actividade empresarial, se se contrata
mais assalariados ou se, pelo contrário, os próprios patrões tendem a
procurar novas formas de relacionamento como conseqência da inadequação do
assalariamento. Tal assumida
inadequação tanto pode ter causas materiais como causas imateriais;
as consequências também podem ter caracter económico ou incidência
ideológica. Para
sintetizar enunciamos o seguinte princípio: -
O assalariamento cuja
evolução importa medir, às luz dos objectivos pretendidos, é o
assalariamento no sector empresarial e que constitua uma relação laboral estável
(AEE- Asslariamento Empresarial Estável). Este enunciado
claramente aponta para a exclusão do AEE dos empregados na Administração Pública
e dos empregados com contratos a termo. Expliquemos porquê: Assalariamento na Administração PúblicaOs assalariados na Administração Pública, que passaram de 372.000 para
599.674 entre1979 e 1996, devem ser excluídos da análise já que se situam no
domínio das actividades “sociais” e “não capitalistas”. Com efeito são empregados pelo Administração Central ou pelas
Autarquias, pagos pelos contribuintes que na sua esmagadora maioria são
assalariados eles próprios, e se alguma mais valia produzem ela é apropriada
socialmente. O papel do Estado ao pagar os salários das centenas de milhares de
trabalhadores que contrata e também ao pagar as prestações sociais (abono de
família, subsídio de doença, etc) pode ser considerado como complementar do
circuito capitalista da economia. Trata-se de cobrar, sob a forma de impostos,
os excedentes que podiam ser poupados e não regressar ao circuito do consumo
para os entregar a quem terá maior probabilidade de necessitar de os gastar. O crescimento acelerado dos efectivos da Administração Pública pode,
aliás, revelar a dificuldade do sector empresarial privado em “dar emprego”
na escala necessária. Assalariamento com contratos a termo Esta fórmula,
que nos últimos anos tem crescido imenso, tem que ser vista no seu significado
mais profundo e não apenas como o desejo de exploração intensiva. Com efeito do
ponto de vista do patrão os contratos a termo revelam falta de confiança na
rentabilidade futura da empresa com base nas potencialidades humanas,
desinteresse na preservação de um recurso (o trabalhador) que em condições
normais devia ser considerado precioso. Do ponto de
vista do trabalhador existe uma sensação de precaridade, torna-se difícil
“vestir a camisola” e investir pessoalmente na profissão. Em resultado
deste quadro, que pode ser essencialmente psicológico e ideológico e de
limitadas implicações económicas, verifica-se que as relações tradicionais
entre o empregador e o empregado são adulteradas, tendo este último muita
dificuldade em reconhecer o papel “social” do empregador e, no plano ideológico,
a “bondade” do sistema em que se integra. Digamos que o
capitalismo foi fundado sobre um “pacto tácito” em que uns “aceitavam”
ser explorados em troca de rendimentos minimamente sufientes e estáveis. Quando tal
deixa de acontecer perde-se a legitimação fornecida por tal pacto. Quantificar o AEE- Assalariamento Empresarial Estável Não possuímos,
para já, dados válidos acerca da evolução dos contratos a termo no período
1974-1998 embora se pense que o seu número cresceu de forma muito acentuada. Se nos
limitarmos a subtrair os
desempregados e os funcionários da Administração Pública (dados conhecidos
para 1979, 1983, 1991, 1996) aos números apresentados acima temos que os
assalariados passam a ser:
1980 - 1.874.300 - 43,7 % da População Activa.
1990 - 2.531.000 - 50,7 % da População Activa.
1998
- 2.538.700 - 50,9 % da População Activa. Se fossem
subtraídos os contratos a termo, que o INE computa em 420 mil,
poderíamos ter em 1998, uma
percentagem de assalariados (em termos AEE) inferior à de 1974. Outros fenómenos a ter em conta na discussão Para além de
tudo o que foi dito anteriormente pensamos que há outros fenómenos que devem
ser equacionados no que toca às estatísticas AEE já que mascaram os números
e tornam problemático o rigor das análises: 1)
Pseudo-assalariamento O número de
empresas cresceu muito entre 1974 e 1998. Vejamos o número
de empresas constituídas em anos de referência: 1974 -
4.371 1980 -
7.645 1990 - 18.684 1997 - 25.377 O exponencial
crescimento do números de empresas, necessáriamente pequenas, tem como consequência
o aparecimento de individuos que, do ponto de vista estatístico, são
assalariados mas do ponto de vista prático são sócios das empresas. È habitual os
sócios das pequenas empresas aparecerem como assalariados; directores gerais,
directores comerciais, directores técnicos, etc. 2)
Reformas antecipadas
ou pré-reformas Cada vez têm
sido mais praticadas estas formas de abandono da vida activa em idades que, à
partida, se situam no âmbito da População Activa. 3)
Trabalho a tempo
parcial Seria necessário
avaliar o impacto quantitativo resultante do facto de muitos apresentados como
assalariados só trabalharem a tempo parcial. 4)
Sub-contratos e
trabalho clandestino São algumas
das formas que assume o esboroamento ideológico da relação
empregado/empregador. ConclusãoPor tudo o que
foi dito consideramos imprescindível avançar com o estudo estatístico, nestes
novos moldes, para poder julgar do grau de desenvolvimento da obsolescência da
relação assalariamento, verdadeiro cerne do modo de produção capitalista. Complementarmente
há que estudar as causas profundas que levam a tal resultado determinando quais
as características da base material digital que implicam a progressiva inadequação
do assalariamento nas novas condições, quer as já evidentes, quer aquelas que
só a prazo se manifestarão claramente. |