Entrevista ao Expresso
JOÃO
AMARAL acusa a direcção do PCP de estar a tentar meter a cabeça na areia após
o desastroso resultado nas autárquicas. E quebra o silêncio para exigir
frontalmente a convocação imediata de um congresso extraordinário. O PCP,
reclama, tem de ter uma nova orientação e outra direcção. A estratégia,
diz, passa por alterar a política de alianças e construir, com o PS, uma
verdadeira alternativa de esquerda. Carlos Carvalhas sai poupado, pelo menos
para já. Mas, para o renovador que reconquistou a presidência da Assembleia
Municipal de Lisboa, deverá haver também, a seu tempo, um novo congresso, para
alterar o programa e os estatutos do partido. Sob pena de o PCP continuar a
definhar.
EXPRESSO
- Como explica que a coligação «Amar Lisboa», PS/PCP, tenha ganho a
Assembleia Municipal e perdido a Câmara?
JOÃO
AMARAL -
O resultado é o da coligação, tanto na Câmara como na Assembleia Municipal,
que assumo inteiramente. Ganho com o PCP para a Assembleia, perco com o PCP para
a Câmara.
EXP.
- Como explica isso politicamente?
J.A.
-
As diferenças resultam das diversas filosofias dos eleitores. O voto para a Câmara
é muito pragmático e para a Assembleia está mais ligado à sua pertença
partidária. Esta diferença significa que o PSD tem uma votação mais baixa do
que a que Pedro Santana Lopes obteve.
EXP.
- Não considera, portanto, que seja uma vitória do candidato do PCP e uma
derrota do candidato do PS?
J.A.
-
Não.
EXP.
- E no país, como avalia os resultados da CDU?
J.A.
-
Antes de tudo queria saudar os autarcas do PCP envolvidos na batalha eleitoral,
e particularmente autarcas como Abílio Fernandes e Adão Barata, que sofreram
uma derrota que não é deles. A derrota é da CDU.
EXP.
- Porquê?
J.A.
-
A CDU teve um resultado muito negativo. Perdeu influência em zonas urbanas -
Loures, Barreiro e Évora -, e em zonas rurais. Em 1997, tínhamos perdido 45
mil votos e oito presidências, considerámos o resultado negativo, fizemos uma
reunião do Comité Central e aprovámos o «Novo Impulso», que aliás foi
boicotado...
EXP.
- Por esta direcção?
J.A.
-
Foi boicotado. Agora, perdemos mais de 80 mil votos, 13 presidências e o
resultado é bastante mais negativo.
EXP.
- Esta evolução não faz parte do definhamento (eleitoral) progressivo do PCP?
J.A.
-
Nas últimas legislativas houve uma ligeira subida percentual, embora com uma
diminuição absoluta em número de votos. O que mostra é que é necessário
reflectir e reagir. E creio que o documento emitido pelo Comité Central não o
faz; assume a derrota mas não tira consequências.
EXP.
- Mas marcou uma iniciativa de reflexão... Deixa-a para um momento posterior, o
que, aliás, também aconteceu em 1997.
J.A.
-
O «Novo Impulso» foi uma resposta a muito curto prazo: as eleições foram em
Dezembro, a 14 de Fevereiro estava aprovado o documento. O que está agora
anunciado para o futuro - uma reflexão sobre o PCP e o Poder Local - é meter a
cabeça na areia. É prometer reflexões em relação ao futuro e esquecer a
reflexão urgente e imediata que é necessária. Não se tiraram consequências,
ninguém assume responsabilidades e, um aspecto que é essencial, parece que o
documento do Comité Central (CC) não questiona a linha política assumida. É
como se ela tivesse estado ausente deste debate eleitoral.
EXP.
- E o João Amaral questiona?
J.A.
-
O próprio documento do CC diz que o resultado do PS se deve à orientação política
do Governo e do PS. Se isso é assim para o PS, por que não o é para o PCP? É
evidente que este resultado questiona a linha política que foi seguida. Uma
pergunta central: diz-se, e bem, que o eleitorado castigou o Governo; mas o
eleitorado que tirou presidências e votos ao PCP não é o mesmo que castigou o
Governo? Por que será que nuns sítios castigou o Governo, dando vitórias ao
PSD, e noutros retirou presidências e votos ao PCP para as dar ao PS? É necessário
fazer esta reflexão.
EXP.
- Qual é a resposta?
J.A.
-
Não queria antecipar uma resposta. O que me parece é que há problemas de
orientação política que devem ser respondidos pelo conjunto do partido.
Queria muito sublinhar este aspecto: o PCP, o meu partido, é na minha opinião
um partido indispensável à sociedade e aos trabalhadores portugueses.
EXP.
- Cada vez menos, em termos eleitorais...
J.A.
-
Se cada vez for mais fraco, cada vez mais os trabalhadores e a sociedade perdem
uma força política que tem importância. Ora, o que é mais importante neste
momento é, precisamente, analisar esta situação e dar-lhe resposta, para um
novo desafio, que são as legislativas.
EXP.
- O que pressupõe a realização de um congresso extraordinário?
J.A.
-
Pressuporia uma reflexão profunda que tivesse por objectivo duas questões
centrais: a definição de uma estratégia para as legislativas e o
estabelecimento de critérios para a composição das listas. A definição de
um programa político profundamente renovado e uma nova estratégia de alianças.
EXP.
- É possível fazê-lo sem Congresso?
J.A.
-
É necessário, de facto, um congresso extraordinário. Isto sem prejuízo de,
mais tarde, se pensar noutro congresso que produzisse alterações ao programa e
aos estatutos do PCP.
EXP.
- Houve congresso há um ano. As condições políticas internas são
diferentes?
J.A.
-
Pergunto aos meus camaradas militantes se, perante esta situação, não sentem
a necessidade de um ânimo novo que resultaria precisamente desse debate
aprofundado, da realização de um congresso, de uma grande reunião de
militantes que desse orientações e respostas.
EXP.
- O PCP está preparado para esse debate? Há abertura da direcção?
J.A.
-
A decisão política está do lado dos militantes. E eu pergunto à direcção
se não considera ela também que essa reflexão é necessária. A pergunta que
fiz aos militantes é uma pergunta que estes podem dirigir, no seu conjunto, à
direcção.
EXP.
- Octávio Teixeira disse que, se as bases o exigissem, devia ser convocado, mas
que não sentia essa vontade das bases. Por outro lado, o líder do PCP já
disse que não havia razões para um congresso extraordinário.
J.A.
-
O meu camarada Carlos Carvalhas disse isso um ou dois dias depois das eleições,
mas se a questão for colocada por muitos militantes, pergunto-lhe se não seria
uma medida necessária.
EXP.
- Qual é a sua opinião sobre alianças? São possíveis já nas legislativas?
J.A.
-
Há pouco falámos de nas últimas legislativas ter havido uma ligeira subida.
EXP.
- Em circunstâncias políticas diferentes...
J.A.
-
Exactamente. Mas o documento do CC refere-o dizendo que em 97 houve uma descida,
mas que em 99, nas legislativas, houve subida. Só que não se tinha passado o
congresso, a saga que o envolveu, não tinha acontecido o desastre que foi a ida
às presidenciais nem esta gestão absolutamente contraditória das relações
com o Governo do PS: por um lado, aprovámos envergonhadamente reformas tão
essenciais como a reforma fiscal ou a da segurança social; depois, quando se
tratou de as sustentar, o PCP esteve ausente. Esta é que é a clarificação
necessária. O PCP não pode fechar-se na sua «fortaleza». É evidente que tem
uma identidade própria e autonomia, quero sublinhar isso, o que não significa
impossibilidade de convergência. E, assim, tem de fazer propostas políticas
que apontem para a convergência dos dois grandes partidos da esquerda que são
o PCP e o PS. Uma governação à esquerda não pode ser feita nem contra o PCP,
nem contra o PS, nem contra as realidades sociais que eles representam.
EXP.
- Não acha que foi esse projecto PS/PCP que foi derrotado em Lisboa?
J.A.
-
As razões da derrota eleitoral em Lisboa reflectem uma tendência global que
atinge o PS. E, por outro lado, tem que ver com deficiências da mensagem e da
campanha.
EXP.
- Esta não é a altura mais complicada para os dois partidos se entenderem? A
coligação «Amar Lisboa» foi derrotada e as Câmaras que o PCP perdeu foram
para o PS...
J.A.
-
Resta saber que alternativa está contida nessa pergunta. O PCP fazer do PS o
seu inimigo principal, que é o que tem sucedido ao longo deste tempo? Por outro
lado, as autárquicas foram fortemente penalizantes mas continuam a dar uma
maioria ao PS e PCP, que têm perto de mais três pontos percentuais que o PSD e
CDS. Existe uma base de condições objectivas para lançar a proposta. O que não
tem havido é dinâmica.
EXP.
- Para essa dinâmica contribui o facto de o sucessor de António Guterres ser
Ferro Rodrigues?
J.A.
-
Do ponto de vista desta proposta política, apresentá-la-emos seja qual for a
forma como o PS resolver a questão da sua liderança.
EXP.
- Ferro é conotado com a ala mais à esquerda do PS, será mais fácil um
entendimento...
J.A.
-
Nunca será fácil. E será possível desde que haja vontade política e dinâmica
nesse sentido, o que não tem muito que ver com quem tem a liderança.
EXP.
- E é possível com Carlos Carvalhas?
J.A.
-
Não estou a pôr, nem ponho, a questão do secretário-geral.
EXP.
- A direcção do partido deveria ter apresentado a demissão no domingo?
J.A.
-
Há uma cultura no PCP que leva a considerar que as responsabilidades nunca são
individuais, são sempre colectivas. Isso, no fundo, é uma forma de
desresponsabilização e de encontrar sempre os argumentos para conservar tudo
na mesma. A questão da direcção, havendo Congresso e uma nova orientação
política, pôr-se-á na medida em que seja necessária para dar eficiência e
dinâmica à aplicação dessa nova orientação.
EXP.
- O PCP precisa de uma nova orientação e de uma nova direcção?
J.A.
-
Sim.
EXP.
- No comunicado do Comité Central diz-se que uma das razões que penalizou a
CDU foi a associação das autárquicas às legislativas. Assim posta, a situação
não é mais complicada?
J.A.
-
Todas as declarações que o PCP tem proferido em torno da demissão de António
Guterres são feitas tirando das eleições autárquicas uma ilação nacional.
Creio que é uma realidade que as autárquicas têm uma forte dinâmica local,
mas há sempre uma componente nacional. E aqui houve essa componente. Por isso,
repito: se houve castigo ao Governo porque o PCP perde Câmaras e votação para
o PS? Sobre isso o CC não deixou uma ideia.
EXP.
- O eleitorado do PCP não anda confuso? O PS é amigo em Lisboa e inimigo no país?
J.A.
-
Não creio que o eleitorado do PCP ou do PS tenha qualquer dificuldade em
entender essa questão. O que o eleitorado do PCP precisa é de uma proposta política
que mostre que o seu voto influencia as questões de governo e as soluções políticas
no âmbito da esquerda, e não um voto deixado ao protesto e de protesto e
atitudes contraditórias.
EXP.
- Se não houver esse congresso extraordinário, o grupo parlamentar do PCP pode
ficar reduzido a um «grupo de táxi»?
J.A.
-
Respondo pela positiva. Para o PCP era extremamente positivo levar à prática
propostas como as que agora apresento.
EXP.
- Mas o congresso não deverá realizar-se...
J.A.
-
Tenho confiança nas aspirações dos militantes.
EXP.
- Se assim não for, aceita ser candidato?
J.A.
-
É uma questão que não se coloca neste momento. A minha proposta é que seja o
congresso do partido a discutir esses critérios.
EXP.
- Mas não se revendo no projecto...
J.A.
-
Tenho confiança em que entendamos colectivamente que a importância que o PCP
tem para a sociedade e para os trabalhadores é superior e levar-nos-á a tomar
estas medidas que são necessárias.
EXP.
- Está sozinho nesta luta?
J.A.
-
Estou convencido, pelo que tenho observado, que muitos militantes do PCP
partilham as minhas inquietações.
EXP.
- Os chamados renovadores ou críticos?
J.A.
-
Não, essa partilha de inquietação é muito larga.
EXP.
- Esta luta já vem de há mais de um ano. Por quanto tempo vai prosseguir?
J.A.
-
Não sou homem de desistências.
EXP.
- E não vai desistir do partido?
J.A.
-
Não vou desistir do partido nem deste objectivo. Não desisto nem desistirei de
ser comunista.
EXP.
- Sente-se mais perto dos «plataformistas» (da Plataforma de Esquerda) do
que desta direcção?
J.A.
- Não. Sinto-me comunista e continuarei comunista. É um projecto que se mantém
vivo e com futuro, não o projecto estalinista.
EXP.
- Mas nomeadamente a direcção entende que a autonomia e identidade do PCP se
faz mantendo-se sozinho...
J.A.
-
Aí divergimos completamente. Sou totalmente contra as ideias de que só faz
falta quem cá está, do partido autista e do partido dos amanhãs que cantam
daqui a 100 anos. A ideia comunista tem de corresponder às aspirações das
gerações com quem dialoga.
EXP.
- A actual direcção é estalinista?
J.A. - Ela afirma que não.
O estalinismo foi condenado nos textos do Congresso de 1991. Agora, não
respondo pelo que pensa cada um dos militantes do PCP no seu íntimo.
EXP. - Voltando a Lisboa, a Assembleia Municipal, a que
presidirá, terá mais protagonismo?
J.A. - Se o acordo de
coligação for cumprido e eu assumir a presidência da Assembleia Municipal...
EXP. - Admite que não seja?
J.A.
-
Não, não admito. Sendo assim, evidentemente que terá maior visibilidade. Mas
isso não significa que se torne o órgão de Governo, que é a Câmara. Não
estou a ver que se transforme num órgão de bloqueio, obrigará é a uma grande
capacidade de diálogo do Executivo.
EXP.
- A mensagem de Álvaro Cunhal foi um ponto positivo da campanha?
J.A.
-
A mensagem do meu camarada Álvaro Cunhal insere-se num conjunto de iniciativas
que foram tomadas sob a ideia de que era preciso uma convergência das forças
políticas e dos personagens que lutaram contra a ditadura e fizeram o 25 de
Abril, e essa é uma das ideias que devem ser analisadas no contexto de saber se
a campanha e a mensagem da coligação foram as mais adequadas para o objectivo.
Talvez não tenham sido.
EXP.
- A CDU ainda faz sentido?
J.A.
-
O PCP só teria vantagem em aparecer com a sua identidade ao eleitorado.