As fotografias desta exposição foram feitas há precisamente um ano.De avião, de automóvel e de comboio percorri então no Norte da Índia os milhares de quilómetros que ligam as cidades de Delhi, Varanasi, Khajuraho, Agra e Jaipur. Dei também um salto ao vale de Katmandu, no Nepal. A viagem à Índia foi marcada por comparações com a China, visitada dois anos antes, e pela enorme diversidade de ambientes encontrada mesmo quando se percorre apenas uma parte do país. A beleza e a quantidade de monumentos é impressionante e o fervilhar humano cria frequentemente situações caóticas como nunca antes observara.  

Por entre as fortes sensações visuais, odores e sabores houve algo que começou a atrair-me de forma constante, percebi eu mais tarde. A elegância do porte feminino e a infinita variedade dos padrões e cores das suas vestes. As mulheres “trabalham como moiras" mesmo quando são hindus mas os seus esvoaçantes trajes têm sempre uma infinita elegância, quer trabalhem no campo, ou na construção, ou sejam apenas mais alguém que se passeia.Numa terra em tantos aspectos caótica as mulheres são um oásis de beleza e de serena força. É caso para dizer que também elas mereciam um Taj Mahal. 

As centenas de imagens, de que as expostas são uma selecção, foram recolhidas ao sabor dos acasos, dos percalços das jornadas, quantas vezes em movimento e sem poder sequer parar.  Encontros fugazes que só existiram no sensor da câmara, tangentes de vidas que seguiam o seu curso numa sociedade gigantesca que, na sua completude, nos custa a imaginar. Caminheiros de longas estradas poeirentas, pessoas que suspendiam por instantes o seu trabalho ou o seu ritual, rostos curiosos que interrogavam o forasteiro.

Quando palavras houve elas foram curtas, mas houve gestos e principalmente muitas trocas de olhares que dispensavam quase tudo o resto. Ao fim de quarenta anos que levo destas viagens continuo, como no primeiro dia, a encantar-me com o carácter mágico da fotografia enquanto forma de revelar a identidade dos indivíduos destacando-os da multidão.

Há nisso um humanismo que ajuda a ultrapassar barreiras.    

Fernando Penim Redondo,